O conto está no contado; e o contado, no contador
(Ricardo Giuliani Neto)
Sou a favor da “comissão da verdade” e não estou com vontade e nem acho conveniente condenar militares, passados vinte e tantos anos. Parabéns ao Ministério da Justiça e à sua Secretaria de Direitos Humanos pela proposta entregue ao Presidente Lula que busca, tão-somente, a retomada de um pedaço mal contado da nossa história.
Tenho lido na obra do Professor Doutor Lênio Streck, um hermeneuta da mais alta qualidade, que só há o fato quando alguém o conta; por outras palavras, hermenêutica “é um modo de ser no mundo”; o contado está no contador, está naquele que, a partir das suas condições de possibilidade, divide conosco suas percepções de vida e de existência.
Já se andarmos por Cornélius Castoriadis, deparar-nos-emos com a afirmação de que a palavra somente existe em função do outro; o discurso somente tem sentido em vista do outro e dos nossos desejos de trazê-los para um mundo que construímos a partir das nossas possibilidades humanas e temporais.
Por que estou dizendo isto? Porque precisamos que nos contem toda a verdade sobre a ditadura militar. A Lei da Anistia operou como se fosse uma borracha: apagou —e mantém apagadas— um bom naco das nossas vivências. Por outro lado, as nossas vivências estão comprometidas pela omissão, pelos fatos não contados, portanto, para nós, inexistentes.
Quando aquele adolescente idealista caiu —no jargão da esquerda, foi preso—, quando foi levado para um porão qualquer do Dops (Departamento de Ordem Política e Social), a polícia política da ditadura, uma família, pelo mínimo, sofreu um “apagão histórico”. O jovem simplesmente sumiu, juntos com tantos e tantos brasileiros que simplesmente sumiram. O Estado sempre negou as prisões vistas por tantos, sempre negou a tortura, sempre negou a matança, sempre se negou a dialogar com a verdade e com os fatos que, todos sabemos, existiram mas, historicamente, simplesmente [e oficialmente] não nos foram contados.
Não quero condenar ninguém. Não quero a “quebra” da Lei da Anistia para condenar quem quer que seja. Quero a quebra da lei aberrante para absolver a todos nós e para retirar a culpa presumida recaindo há quase duas décadas sobre uma maciça maioria de militares e de civis que não tiveram relação alguma nos episódios do terror praticado no período dos anos de chumbo; se não estivermos dispostos a contar a história, continuaremos subsumidos em presunções falsas e submersos em lutas meramente corporativas e sombrias. Melhor dizendo: estaremos presos a um conto falso e hipócrita produzido pela “história oficial”.
É exatamente a esse serviço que o Ministro da Defesa Nelson Jobim assumiu posição ao lado dos generais de pijama entrincheirados no Clube Militar do Rio de Janeiro. Bem ao novel estilo Jobim, fanfarroneou ameaçando entregar o cargo ao Presidente da República. Se o ministro Jobim não quer defender à sua história construída à época em que resistia ao regime militar, vamos nós defendê-la. Que permaneçam os saudosistas generais com os pijamas e com as pantufas e fiquemos nós, nação, com uma história que precisamos seja contada.
A Lei não é capaz de fazer a vida ou de desfazer os fatos; não é como o general ditador, que para satisfazer seus camponeses famintos pela destruição de suas lavouras, decretou a interrupção das erupções vulcânicas na centro-américa.
Os vulcões continuarão a verter lava e a lançar rochas como as mentes, sedentas de verdade histórica, o fazem. Mas os fatos, somente estarão nas nossas existências se puderem nos ser contados.
Mães querem saber onde estão as ossadas dos frutos dos seus ventres; o País quer render homenagens aos filhos seus que entregaram suas vidas pelas nossas vidas e liberdades, todos nós precisamos absolver os militares que não tiveram participação nos atos lesa-humanidade.
É nesta medida que defendo a “Comissão da Verdade”. Quero o conto contado pelas vozes daqueles que nos podem dar algum sentido; quero o conto na boca do contador. Quero o fato, o pedaço de história que ficou pra trás e que ninguém tem o direito de escondê-lo o tempo todo de todos nós.
Pela verdade, pelas gerações que ainda não têm ideia do que foram os anos de chumbo, nada melhor do que a verdade, só isso, a verdade; algum problema?
* Texto publicado no site http://ultimainstancia.uol.com.br/new_site/colunas_ver.php em 04/01/2010





