22 de Janeiro de 2010


O Haiti
5:20 pm - Última Instância

O Haiti

(Ricardo Giuliani Neto)

“Senhor Deus dos desgraçados!/dizei vós, Senhor Deus!/ Se é loucura… se é verdade./ Tanto horror perante os céus?!//

Assim Castro Alves chamava a atenção do Senhor para as misérias da África negra no seu “Navio Negreiro”. Nos acostumamos com as fotografias de crianças entrevadas na fome e cercadas por aves de rapina; por vezes, aves humanas; urubus enormes espreitando os olhos enormes dos tenros e apavorados esqueletos etíopes cobertos de pele negra e amansados pelos estômagos vazios da quase desesperança.

Sim, tais registros correram o mundo e mesmo assim não foram capazes de sensibilizar os poderosos do mundo. Lá continuam os africanos, por mais quantos séculos, miseráveis e Castro Alves, onde andarás? Continua, suplique por nós, chame a atenção do Senhor: Senhor Deus dos desgraçados…

Não precisamos ir longe e nem retroceder ao século XIX. A miséria está ao nosso lado.

Sim, aqui nas favelas das nossas cidades, ali estão os nossos Haitis. Aliás, “o Haiti é aqui”, cantam Caetano e Gil.

Quantas iniquidades cairão sobre nós até que nos atentemos sobre as nossas misérias e sobre os nossos paupérrimos corações?

Foi lá, sim, na ilha Hispaniola, que Cristóvão Colombo fincou pés em outubro de 1492. De lá, nós, os de tez branca, partimos para colonizar as Américas. E o legado deixado por cá? Terremotos e misérias sobre a tez negra.

Um lugar onde 80% das pessoas são miseráveis, onde se come bolacha de barro – sim, bolachas de barro – onde a maioria da população vive com a renda de um dólar por dia – e olhe lá – foi presenteada por um abalo sísmico sem precedentes – Senhor Deus dos desgraçados… – empilhando cerca de 200 mil miseráveis sem vida.

Claro, a ajuda humanitária está chegando. Os abnegados de sempre já andavam lá: Cruz Vermelha, Médicos Sem-Fronteira, religiosos e organizações não governamentais. A ONU andava por lá!

Muitos deixaram deles, morreram junto com os haitianos; cadáveres não tem nacionalidade, mesmo nas ruas e calçadas de Porto Príncipe.

E ainda falam em auxílios humanitários de alguns milhões de dólares. Ora, os grandes conglomerados financeiros e industriais do mundo, durante a crise do subprime, receberam, ao que se revela, cerca de dois trilhões de dólares. Seria pedir muito? só dez por cento deste valor para os miseráveis do Haiti? A destruição já se consumou… vamos à reconstrução, é possível!

E ainda tem gente no nosso país ostentando a mediocridade atroz. Mesquinhos de meia tigela, ou melhor, mesquinhos de tigela e meia. Li nos jornais sobre brasileiros reclamando dos 15 milhões de dólares em medicamentos, alimentos e outras coisinhas mais que o Governo brasileiro, imediatamente, destinou às vítimas do Haiti. Não ouvi esses brasileiros reclamando das aquisições de pequenos bancos pelo nosso governo por intermédio do Banco do Brasil ou da Caixa Econômica Federal. Não ouvi reclamarem dos bilhões de dólares destinados a FORD ou a GM e, bom, deixa pra lá!

O mundo, a humanidade, precisa dar-se conta de que o homem vem – ou deveria vir –em primeiro lugar. Fora disso não há solução digna.

Que o terremoto no Haiti abale as nossas consciências. Que façamos uma última homenagem a Zilda Arns, brasileira morta no Haiti: reflitamos sobre sua missão.

Um mundo melhor é possível e só depende de nós.

Sugestão de leitura: Navio Negreiro. Castro Alves

* Texto publicado no site http://ultimainstancia.uol.com.br/new_site/colunas_ver.php em 18/01/10