Um novo mundo é possível: o FSM
(Ricardo Giuliani Neto)
Começa hoje na Região Metropolitana de Porto Alegre o Fórum Social Mundial.
Há 10 anos iniciava-se uma experiência que, por concepção, não deveria ter fronteiras e nem donos; aninhar-se-ia em algum lugar do planeta com a singela pretensão de falar para todos e em todos os lugares onde houvesse gente com disposição de afirmar que um mundo novo é possível. Andou pela Ásia e pela África, e ficou-se, agora, no porto onde, pela vez primeira, expressou-se.
Alternativa a Davos e ao Fórum Econômico Mundial. Plural, e assim tem-se mantido.
Um novo mundo é possível, o pensamento único é deplorável. Uniam-se todos de todos os jeitos para enfrentar o neoliberalismo político e econômico. Religiões e religiosos, partidos políticos, jovens, sindicatos e empresários, todos clamando por um novo modo de discutir o mundo. Em 2001 ninguém imaginaria, ninguém teria a audácia de insinuar sequer que o mundo do capital passaria pela megacrise que levou à bancarrota grandes conglomerados financeiros e industriais em todos os cantos do globo. O discurso único havia sofrido um duro revés!
Hoje em dia as ideias “esquerdistas” do primeiro Fórum Social Mundial já transitam com mais tranquilidade. A morte do pensamento único, pela crise do subprime, deu certa naturalidade ao adágio “um mundo novo é possível”; tem saída fora do neoliberalismo, agora sabemos todos. Os “exotismos” do primeiro momento de FSM cederam lugar às procuras mais intensas por um novo futuro, hoje, mais que possível, um mundo novo necessário e capaz de humanizar a humanidade.
As referências perdidas com a queda do muro de Berlim —o aniquilamento do socialismo real—, que fazia do FSM não mais que um contraponto, também único, ao neoliberalismo monocórdio, tem, nos dias de hoje, um ambiente pedindo outros reencontros e novas pautas políticas e, quem sabe, uma outra metodologia.
Não esqueçamos que por aquele FSM de 2001 passaram Lula, Fernando Lugo, Hugo Chaves, Evo Morales, Rafael Correa, entre tantos outros homens que, na contemporaneidade, ocupam postos de destaque nas administrações estatais. Gostem ou não gostem, estes agentes políticos, impregnados por um fazer político que procura construir ou (re)tomar o Estado, devolvem aos seus povos direitos sociais que vinham sendo avassaladoramente sonegados, especialmente na latino-américa.
Os desafios do Fórum Social Mundial, como ambiente plural de construção de um outro pensamento, residem na edificação de políticas públicas deliberadas e compostas com a finalidade de execução e radicalização de um mundo concretamente inclusivo. Portanto, a metodologia do Fórum precisa ser revista e assumida como capaz de assegurar posturas políticas ancoradas na inclusão do outro a partir de um Estado de novo tipo, pós-liberal.
É evidente que as características originárias do FSM deverão ser mantidas sob pena de tornar-se uma Davos com sinal invertido.
O FSM há de constituir-se, fundamentalmente, como ambiente de discussões, todavia, não pode reduzir-se a só isso sendo indispensável as recomendações, as orientações políticas e as assunções de posições contramajoritárias quando relacionado com as questões apresentadas pelo sistema de representação política concebida ainda pela modernidade burguesa do período da primeira revolução industrial.
Os primeiros dez anos de FSM nos indica a possibilidade real de elaboração de um novo e legítimo modo de representação (fazer) política. A presença massiva de organizações sociais no ambiente do FSM é esta possibilidade, pois enriquece a democracia, produz soluções e diagnósticos e preenche uma dimensão da política que o modelo institucional vigente é incapaz de produzir e sustentar.
De tudo, o importante é que o Fórum Social Mundial sempre se assumiu como representação de um espaço político diferente daquele ostentado pelo capital, principalmente, em Davos, na Suíça.
Esta década de vida impõe ao FSM a redefinição de caminhos e de papéis; portanto, se assim o é, que não se abra mão da pluralidade que sempre caracterizou esse espaço privilegiado de discussões públicas para um novo mundo sempre possível e desejável.
* Texto publicado no site http://ultimainstancia.uol.com.br/new_site/colunas_ver.php em 25/01/10





