3 de Fevereiro de 2010


Regulação sobre os conglomerados financeiros: o fim do mundo?
9:06 am - Última Instância

Regulação sobre os conglomerados financeiros: o fim do mundo?

(Ricardo Giuliani Neto)

Buenas tardes e fui chegando. Entrei na agência postal mais austral do mundo; a agência do correio argentino que fica localizada dentro do Parque Nacional da Terra do Fogo, em Ushuaia. É um friozão de rachar. Aqui tem-se basicamente duas estações: frio e muito frio!

Buenas tardes e fui entrando e dei de cara com uma fotografia estampada num ponto nobre do casebre oficial. Bem arrumado, asseado, era uma agência postal montada bem ao estilo dos anos 20; tinha carimbos, caixas e um montão de cartões para serem adquiridos e distribuídos para todos os cantos do planeta. O cheiro era de tempo não passado. O casebre de madeira, plantado sobre um trapiche muito antigo, era cuidado por um senhor de barbas brancas e olhar atento. Todos os estrangeiros que por lá passavam, ou caminhavam embasbacados pela beleza das inúmeras obras de arte por ali deixadas pelo Senhor Deus, ou pensavam em mandar para si mesmas um cartão postal com os dizeres: Mandei-me um postal diretamente do fim do mundo.

Buenas tardes e logo fui bancando o sabido e dizendo para minha mulher: aquela ali é a Isabelita. Nossa mãe! Nem bem percebi o erro e os olhos do homem postal mais austral do mundo fulminaram-me afirmando, “é o fim do mundo”. Confundir Isabelita com Evita, realmente, é o fim do mundo.

Tinha eu, solenemente, cometido um atentado contra Eva Peron e contra o povo argentino que tão gentilmente me estava recebendo e tudo, exatamente, no fim do mundo.

Ushuaia é o último lugar antes que o mundo termine, portanto, o fim do mundo é aqui mesmo; claro, isso para quem se vai. Se for para quem chega, será o começo. As montanhas nevadas, o vento cortante, a gente acolhedora e o porto romântico. Para quem vem, é o começo do mundo, já para quem vai, de fato, será o fim, mas não o fim de tudo.

Nestes dias em que me achei nos confins do fim do mundo não deixei de ler o jornal, de acompanhar os Fóruns mundiais – o econômico e o social, Davos e Porto Alegre. Mas, aqui do fim do mundo – globalizado [por supuesto] – pude acompanhar as discussões a respeito da proposta de Barak Obama sobre os mercados financeiros e a necessidade de sua imediata regulação, ou melhor, a lei deveria valer para os grandes conglomerados financeiros. Os liberais de Davos sentenciaram a iniciativa do Presidente Americano de intervencionismo estatal, fora de hora e de propósito, portanto, “o fim do mundo”.

Depois de trilhões e trilhões de dólares jogados em intervenção estatal nos mais clássicos moldes, os donos do capital financeiro internacional repelem qualquer tentativa de regulação sobre o setor que foi o principal responsável pela quase bancarrota mundial; aqui do fim do mundo ouço da boca das profetizas de plantão: a proposta de Obama é o fim do mundo.

Recordemos que os Estados Unidos são o pai do intervencionismo estatal, bastando relembrar a criação das agências reguladoras já no final do século XIX, a determinação na quebra do monopólio do petróleo (quando nasceram as sete irmãs) e a quebra corporativa dos gigantes das telecomunicações. Não precisamos ir para a compra do controle acionário da GM e as pesadas capitalizações feitas pelo governo americano na Ford, em seguradoras e Bancos privados.

Senhor agente postal, desculpas por estar aqui no fim do mundo e me enterrar num equívoco mortal. Jamais se pode confundir Evita com Isabelita: mesmo que ambas tragam o sobrenome Perón, confundi-las, é o fim do mundo. Obama socialista e presidentes de grandes conglomerados financeiros mundiais benemerentes, é o fim do mundo.

Escrevi o meu postal e, com todos os carimbos de estilo, remeti-me para o meu endereço em Porto Alegre. Quanto aos dizeres? não lembro bem! Mas tem alguma coisa com o fim do mundo.

Buenas tardes e fui-me retirando cheio de vergonha pelo erro cometido ao, sem qualquer cautela, ter feito um juízo sobre aquela fotografia em preto e branco fincada no centro do último posto de correio que no mundo existe e que é o símbolo do respeito nutrido e guardado por todo um povo mesmo que seja no fim do mundo.

* Texto publicado no site http://ultimainstancia.uol.com.br/new_site/colunas_ver.php em 01/02/2010.