18 de Fevereiro de 2010


Prenderam o Arruda: “Hoje não! hoje não! hoje sim…”
6:17 pm - Última Instância

Prenderam o Arruda: “Hoje não! hoje não! hoje sim…”

(Ricardo Giuliani Neto)

Já escrevi sobre o Arruda e seus escândalos. Já chamei a atenção sobre o Joaquim Roriz e o povo do Distrito Federal. Mas não custa nada falar, outra vez, sobre Arruda, Roriz e o judiciário do meu País.

Já falei mal da nossa Justiça e já pedi moderação para com os políticos tupiniquins. Já recorri ao velho Nelson Rodrigues e ao nosso complexo de vira-latas. Daqui uns dois dias a quarta será de cinzas; em meses, será que sobre Brasília voltará a revolver suas próprias cinzas, reelegendo Roriz?

Não esqueçamos que da caixinha de Roriz nasceram o senador Luiz Estevão e governador Arruda. O primeiro senador cassado na história republicana; o primeiro governador preso na história republicana, claro, antes havia renunciado —para não ser cassado— ao Senado por ter violado o Painel de votação da Câmara Alta para logo após, nos braços do povo, tornar-se o deputado federal mais votado do país e, em seguida, governador do Distrito Federal.

Roriz? ah!? Sim! O Pai de todos é o favorito para engolir as eleições de outubro no Distrito Federal.

Mas o fato do período é esse: prenderam o Arruda!

O gozado é que ao ler a notícia da prisão, em algum sítio da internet, imediatamente, a imagem que veio foi a do Cléber Machado narrando os metros finais de uma corrida de fórmula 1.

A corrida aconteceu não sei onde. Quando o Rubinho, nos metros finais da contenda, tinha o Schumacker no retrovisor a empolgação do narrador, tomado de brasilidade, desabafou seus dons patrióticos. O alemão comia asfalto já fazia horas e a bandeira quadriculada pronta para sentenciar para o mundo a sensacional vitória do brasileiro sobre o melhor piloto de Fórmula 1 de todos os tempos (o Schumy é bom, mas não ata as botas do Senna).

A vibração tomava conta das cabines de transmissão e de todas as salas e esquinas do nosso País. O Brasil inteiro atônito com o que estava prestes a acontecer. Rubinho já havia cedido aos comandos da equipe em corridas anteriores, deixando a vitória, na lambuja, para o Alemão.

Hoje não! Hoje não!, gritava o Cléber. Estava nos limites da histeria: hoje não! hoje não!! O locutor tramava nos seu mais íntimo sentimento contra o contrato de Rubinho com a Ferrari; Rubinho fora obrigado a deixar o primeiro piloto terminar o circuito em melhor posição em face de uma cláusula contratual.

A corrida tinha sido tão sensacional que o mundo gritava: hoje não! hoje não!!! às favas com o contrato da Ferrari, era o que todos pensavam e queriam, lá no fundo do fundo do fundinho do coração.

Prenderam o Arruda!!! O STJ mandou prender o Arruda!!!

Mantiveram a prisão do Arruda!!! O STF indeferiu o habeas impetrado pelos defensores do Arruda!!!

Suspense geral. Por ordem do ministro Fernando Gonçalves do STJ, pela primeira vez na história do Brasil, prendeu-se um governador de Estado!!!

Suspense geral.

Pela pena do ministro Marco Aurélio, mantiveram o Governador presinho da silva. Passará o entrudo momesco detrás das grades na Polícia Federal.

Imagino o Cleber Machado, hoje não!!! hoje não!!! Claro, com a vista na experiência do ocorrido com o Daniel Dantas, hoje não! hoje não!

Nós brasileiros estamos com o coração na mão. Poderemos estar presenciando o nascimento de um marco histórico, um marco divisor, uma sinalização de que o Judiciário pode ser eficiente e, diante do conteúdo da decisão (disponível no sítio do STJ), estar-se-á fazendo direito ao invés de política. Por outras palavras, não estamos tratando daquelas ganhadinhas baratas de juízes metendo-se em seara imprópria. Hoje não!

Mesmo que a decisão do ministro do STJ contenha não mais que 16 linhas (contando o nome e a data), o fato de ter-se integralmente fundamentado na peça do Ministério Público Federal —que a transcreveu integralmente no voto— é uma peça legitimada pelo voto de outros 12 ministros e arribada em fundamentos de ordem estritamente jurídicas.

Quando a bola foi passada para o STF, confesso-lhes que quase ouvi o hoje sim!! hoje sim!!! do Cléber Machado dizendo pro mundo que Rubinho deixara o alemão, nos metros finais, ultrapassá-lo, cumprindo rigorosamente o seu contrato.

Mas não. Ufa!!! O ministro Marco Aurélio, um qualificado e polêmico conservador (relembremos o HC que liberou o banqueiro Cacciola, em 2000; a cassação da ordem de prisão preventiva nao peração Furacão, em 2007, entre outros), resolveu ser protagonista —pelo menos por enquanto— de um dos momentos singulares da história institucional brasileira.

Ah! antecipo minhas desculpas ao leitor, já que não posso usar notas de roda-pé, novo parêntese: (espero que o recadinho dado pelo ministro Marco Aurélio no final da decisão indeferitória da liminar no HC de Arruda —“dias natalinos” e “festas pagãs”— e o convite à não repetição “da autofagia” [no STF], não revele simplesmente mais um estrondo na fogueira das vaidades com endereço ao Doutor Gilmar). Hoje não!!! hoje não!!!

Vamos ver onde tudo vai dar. É a hora da verdade… Vamos ter boa vontade, otimismo e esperança. Vá que a história não se repita e todos possamos, orgulhosos e grandiloquentes, como 160 milhões de “Cléberes Machados” gritar: hoje não!!! hoje não!!! hoje não!!!

*Texto publicado no site http://ultimainstancia.uol.com.br/new_site/colunas_ver.php em 17/02/10.