A sociedade dos ambidestros; quando começará o futuro?

  Este texto serve como base para a palestra a ser apresentada junto a Associação Comercial e Industrial de Novo Hamburgo, em 11/DEZ/2014, no evento “Prato Principal”. Pediram que seja feita análise sobre atual situação política do País bem como fosse elaborada uma prospecção sobre o ano de 2015 em vista do novo período Presidencial.

 

Para início de conversa é relevante a recuperação de um modo de ver e de fazer a política: não há política sem palavra, não há sociedade sem palavra organizada e palavra organizada é discurso que expressa uma pretensão sobre o mundo. Discursar é entregar ao outro um modo de ver o mundo, ou melhor, um determinado mundo. Sendo mais preciso: discursar é entregar ao Outro um modo de ver o mundo a partir de um local diferente daquele ocupado pelo Outro. Ainda, neste processo, onde a palavra pode sofisticar-se como linguagem – dita por intermédio dos mais diversos modos de expressão – o discurso adquire plataformas de contexto, de tempo e de ação; de descrição e de precepção, ou seja, para simplificar, além do sentido (desde já antecipado) a palavra traz consigo a tradução de um interesse de quem a organiza para contar um mundo ao Outro e para convencê-lo de que o mundo visto/percebido por quem o conta é melhor e mais interessante e benéfico do que o mundo visto pelo ouvinte, pelo Outro.

O ato político por excelência é a troca de discursos, ou seja, a partilha das visões de mundo com a pretensão de convencimento recíproco. Então, para compreender a política, da mais subalterna à mais sofisticada, é indispensável o exercício de compreensão dos discursos e, para tanto, compreender as convenções e traduções da humanidade em sua construção histórica (tradição) na criação de símbolos linguísticos (inovação) que designam o mundo mesmo. Portanto, o passado é o calço para o futuro. Ou, parafraseando Lênin (Zizeck, vem junto), é preciso dar um passo atrás para dar dois à frente.

1)      A PALAVRA. Sim, quero falar de direita e de esquerda e não quero parecer anacrônico

Copo! Pronto! Macaco! Pronto… preciso afirmar que o primeiro se trata de um recipiente apto a conter líquidos? Não!? Preciso afirmar que o segundo é um animal pertencente ao reino dos primatas? Não? Sim, não preciso. Mas há texto e contexto – num mundo constante de atribuições e disputas de sentidos – onde a significação adquire sentidos a partir de interesses com potência de ressignificar a palavra, a expressão, no caso, científica e culturalmente consagrada. Por que não temos problemas com a expressão Romance Noir? Mas romance negro poderíamos ter… por que não temos problemas em dizer “quando o negro abre sua gaita” e podemos ter quando afirmamos que o “negro abriu a bolsa de alguém”? Black music, música negra, etc… O mundo do “politicamente correto” é uma daquelas potências de ressignificação de que falei; isso não é natural, espontâneo, há um interesse posto nesta ambientação, nesta contextualização. Por outra, há um texto que se escreve a partir da construção de um determinado contexto validativo e legitimante.

A política não foge destas questões, ou melhor, a política é quase que somente isso: textos que se escrevem em contextos desejadamente construídos. Falemos de direita e de esquerda sem a acusação simplória, mas politicamente eficaz, de arqueologismo político?

De que adianta dizer que tal expressão – categoria política –brota na Assembleia Nacional  Francesa, num determinado momento histórico, com Jacobinos à esquerda da mesa querendo avançar na direção da república, querendo progredir de regime, enquanto os girondinos, postados à direita, defendiam a monarquia e desejavam conservar o regime; progressistas e conservadores, esquerda e direita. Ora, poderia sofisticar a discussão e trazer os temas fundamentais da política da revolução burguesa e o advento das sociedades socialistas com os temas da liberdade e da igualdade, onde, segundo alguns poder-se-ia resolver a questão e definitivamente entregar os carimbos aos seus verdadeiros donos. Poderia trazer exemplos históricos dos liberais de esquerda, dos capitalistas de esquerda, e isso tudo fugindo aos lugares comuns que tomaram conta do mundo da política contemporânea que tornaram esquerda e direita sinônimos de socialistas/comunistas e liberais, respectivamente.

Terçaríamos a falsa e inútil discussão. A propósito, a literatura sobre o tema é abundante, bastaria querer busca-la e, imediatamente, é claro, deveríamos demitir os intelectuais de aluguel, pagos para dizerem o que queremos ouvir ou para emular nossos sentimentos envergonhados de capitalistas que não temos a menor ideia do que é ser capitalista, especialmente no mundo contemporâneo.

O fato é que há uma antecipação de sentido na palavra dita. Este é um legado relevante da filosofia da linguagem. A palavra traz consigo um conceito, de início, descritivo e, por vezes, preceptivo. A palavra dita diz o que é e, a depender do quilate do que é, também diz o que dever ser feito para que ela, em seu significado material, realize-se no mundo da vida (Habermas).

Diria João, “no princípio foi o verbo”; oremos irmãos… na cabeça dos cristãos virá a expressão “amém”, ou não?

Não pensem em macacos… imediatamente a figura do macaco apareceria em nossas mentes e assim teremos a um só momento a descrição e a precepção.

Dada a descrição e a precepção começamos a organizar as palavras em discurso, ou seja, passamos a exercer uns sobre os outros a troca de percepções sobre o mundo que vemos, cada um a partir do seu local e cada um submetendo o outro a um certo efeito de paralaxe, ou seja, na medida em que o eixo da vista modifica, modifica-se a visão sobre o mundo e, por conseguinte, modifica-se a visão do mundo, os outros, sobre nós.

Há elementos normativos que a palavra encerra em si e, articulada em discurso, estes elementos se destinam ao convencimento; o interesse é convencer e fazê-lo com ordens e pretensão de legitimação.

A palavra construída é passível de desconstrução. A simplificação desconstrói. No mundo da política e dos seus processos cognitivos as duas grandes vítimas são  ESQUERDA e DIREITA. Ademais, é preciso ter presente que os processos comunicacionais, onde a matéria prima é a palavra, sua organização em linguagem, na sociedade pós-industrial constroem e descontroem imaginários a partir da redefinição conceitual de um modo de ver e descrever o mundo a partir do que podemos chamar de culturas digitais.

2)      Não há futuro sem as seguranças do passado

Verificada a política atual, a primeira questão que salta aos olhos é o abandono dos capitalistas a alguns de seus fundamentos básicos. Para citar dois: do ponto de vista econômico, abriu-se mão do controle do Estado como elemento assegurador e garantidor de mercados; do ponto de vista ideológico/político, a luta por uma estabilização social básica, mínima (Fukuyama).

Passando os olhos pelo mundo, perceberemos que, guardadas as proporções, os eventos são repetitivos e obedecem um certo ritual de reivindicações de parcelas da sociedade que não se sentem mais representados pelo Estado concebido na revolução burguesa nos idos do século XVIII. Aquele Estado tripartite, trifuncional, perdeu, aos olhos de uma população exposta a uma comunicação que opera em real time o sentido fundamental de organização da sociedade.

Importa uma pequena digressão: o projeto burguês de criar um Estado para si, esculpido a partir do Iluminismo filosófico e econômico, apresentava-se à sociedade como o repositório de um projeto comum, ou seja, CIDADÃO era o tratamento compartilhado entre os parceiros de projeto. Cidadão era o homem livre que participava dos negócios da cidade, do Estado. A condição de parceiro de projeto era suficiente para dar a este homem livre a condição de titulação de direitos políticos que, juridicamente, eram garantidos por um aparato organizado de violência (Weber) que vinham moderados por estruturas de poder onde a representação, as assembleias, eram garantidoras e constituidoras da nova sociedade. Assim eram os camaradas comunistas do final do século XIX. Eram parceiros de projeto político; construtores de um mesmo discurso sobre um determinado mundo. Portanto, na política, o discurso construía estruturas preceptivas (normativas, internas e externas) que posicionavam largas parcelas da sociedade diante de uma disputa política sobre qual mundo seria um mundo melhor.

A partir das necessidades sociais agravadas a partir da primeira grande guerra (Hobsbawm) o Estado se transmuda e, deixando de ser exclusivamente um organizador do poder político burguês, toma para si a necessidade de provedor, ou seja, o capitalismo necessita de uma sociedade com um mínimo de estabilização econômica e social. A organização do trabalho e a reorganização dos processos produtivos depende da satisfação de necessidades básicas da teia social que cada vez mais se complexifica e, para tanto, o Estado capitalista toma para si deveres sociais, especialmente fixado em saúde, educação, previdência e infraestrutura. Neste período, o estado burguês passa a conviver com o estado socialista soviético, onde o imaginário do mundo passa a ser disputado a partir da dicotomia homem-livre/homem-igual.

Assim, para financiar as novas demandas estatais, os burgueses que, por conta de impostos, nos idos do século XVIII insurgiram-se contra o rei, passam a buscar tributos capazes de satisfazer as demandas de estabilização social pela entrega de bens à sociedade. Aqui nasce a figura do CONTRIBUINTE como a conhecemos; aquele que era cidadão passa a titular direitos frente ao estado em vista de um imperativo retributivo, ou seja, se pago impostos, devo receber algo em troca. A condição do ser político começa a se transmudar a partir de uma remodelação da sensibilidade sobre e acerca do aparato do estado. A máxima expressão disso é o ESTADO DE BEM ESTAR SOCIAL.

Importa registrar que tais processos de reorganização da teia social, seja do ponto de vista econômico, seja do ponto de vista social, gera os elementos fundamentais para a eclosão da segunda grande guerra, o que, novamente, remodelará o Estado Burguês. O fato é que, a partir da reorganização das forças industriais do planeta, especialmente Estados Unidos, Inglaterra e França, na face ocidental, o Estado soviético e o Japão, na face oriental, imprimem a necessidade de novos modelos de dominação, ideológico clássico (no caso socialista) e mercadológico (que não deixa de ser ideológico) no caso ocidental; aquele capitaneado pela antiga URSS, este pelos Estados Unidos. Importa referir que é neste período, especialmente a partir dos anos 30, que o Estado passa a ser indutor direto da economia com pesadas inversões de capital em benefício da indústria que se remodela e com o estabelecimento de ações rigorosamente protetivas a certos mercados nacionais, especialmente as nações de centro (industrializadas).

Este processo de concentração de capitais nas mãos do Estado e, portanto, de rigorosa concentração de capitais nas mãos do Estado, irá, na década de 70, inspirar o processo político e econômico conhecido como neoliberalismo, ou seja, a transferência de capitais públicos para o mundo privado. Isso ocorre em vista dos processos produtivos e pela perda das bases de estabilização econômica da sociedade, especialmente no que diz respeito a empregabilidade. O chamado Consenso de Washington nada mais é do que o momento onde politicamente conserta-se uma agenda política e econômica para o mundo ocidental e para o mundo.

A industrialização crescente e a inclusão de grandes massas no mercado novo cria um personagem também novo, o CONSUMIDOR. As vendas em massa e os processos de organização ideológica de quem é integrado ao mundo moderno impõe uma nova ordem e uma nova titulação de direitos ao antes contribuinte que antes era cidadão. O Ser cede espaço ao Ter. Observe-se que no mundo do consumo o Estado é garantidor de relações entre produtores e compradores e o direitos políticos passam a ser exercidos de uns contra os outros com a tutela de Estado, as garantias jurídicas passam a existir a partir de uma lógica de consumo ou de mercado no sentido de comprar e vender, e não mercado com um ambiente complexo de relações de poder. Na verdade, este tipo de interação produzirá o desleixo do capital com os mecanismos de poder e com o Estado burguês fundado como garantidor para o exercício de poder político de uma porção da sociedade sobre o mundo todo.

É neste condão que os temas da política atual adquirem relevância. Mas pelo seu colapso do que pelas suas consequências formais sobre a sociedade e sobre o establishment.

Nossas incompreensões sobre o “estado das artes” impossibilita a elaboração de estratégias de disputa de poder. Aliás, como já disse, o capitalismo, especialmente no Brasil, abandonou seus próprios fundamentos. Por outras palavras, o capitalismo abandonou o Estado em troca de favores fiscais deste próprio Estado e isso, significou a viabilização do surgimento de castas de funcionários que, aliados a determinadas camadas da sociedade, passaram as gerir o estado para si mesmos, como adiante veremos.

O processo político brasileiro é vítima de um pensamento cômodo que abandonou a disputa política. As relações políticas intra-estatais são determinadas por prestadores de serviços e por funcionários. As grandes políticas sequer são pensadas como projetos de poder, mas como processos desobrevivência diante de uma realidade de demandas econômicas, normalmente, pueris e desconsituidor de um sentimento que Marx chamava de “sentimento de pertença”, ou seja, há um lado nesta história e preciso saber de que lado estou.

Os discursos produzidos no mundo pós-industrial, na cultura digital, diluíram completamente os grupos efetivos de poder que, por incrível que possa parecer, ainda existem na sociedade. Os discursos que moralizaram a política e trouxeram para dentro dela, que é um ambiente onde a conduta ética reside e se suporta na construção de projetos (interesses determinados pela disputa democrática) para o mundo, o espaço de aferição de condutas pessoais, só pode entregar o poder política para uma casta de “controladores” da moral de estado, nada mais.

O passo requerido, hoje, é o passo atrás! É necessária uma decisão: direita ou esquerda?! Acreditem, há sentido nisso. Primeiro, tomaremos decisão; segundo, haverá lado neste caminho, pois, hoje, todos se dizem diferentes, mas fazem tudo igual.

3)      O passo certo na direção errada

Como já disse, moralizar a política é um grande erro, como grande erro é demonizá-la. Isso não quer dizer que não possamos reconhecer o mau-caratismo de alguns políticos ou os demônios do “no es lo mismo pero es igual”, ou por outra, do me engana que eu gosto.

Ora, precisamos fazer uma reforma política! Precisamos fazer uma reforma tributária! Precisamos fazer uma reforma institucional! Precisamos fazer uma reforma no banheiro! Sim, e daí? Que precisamos reformar não há dúvidas. Até quem não quer reformar diz que as reformas são inadiáveis. Sim! E daí.

A questão se impõe ao capitalismo brasileiro e à sociedade toda. A questão se impõe ao socialismo brasileiro e à sociedade toda. A questão se impõe às novas aristocracias brasileiras e à toda sociedade. Na verdade que há e um medo horrível de tomar decisões e de assumirem-se aquilo que verdadeiramente são. Capitalista é capitalista! Socialista, socialista! Trombonista é trambonista e nós, somos exatamente o quê? Indecisos e expertos. Todos querem a teta de um Estado provedor e não querem o ônus da disputa política clara, da disputa pelo Poder, de tomar democraticamente o Estado para si, ou melhor, a disputa pelo Estado tornou-se um farto financeiramente indigesto.

Então é que vem a pergunta que nunca é respondida e sequer é posta na pauta e na ordem do dia dos grupos de “poder” que estão envergonhados na sociedade: reforma política para quê? Quero reformar para ir para onde? Qual é o meu lado neste negócio? E o teu qual é?

Eis o discurso que retorna ou pode retornar à ordem do dia da política. O sem vergonha sempre existirá, e ele será político ou advogado ou padre ou empresário ou… um ser humano que comete as coisas de seres humanos. A questão é: que institucionalidade é suficiente para controlar os seres humanos que a criaram? Essa a questão. Valores como transparência, honestidade, ética, etc. são conceitos, palavras que não trazem nada consigo de per se. É necessário um contexto e um texto que lhe dê sentido e, mais do que descrever o que é, deve prescrever as condutas desejadas e postuladas pelas hegemonias.

Vamos para a vida real, como cobrará alguém. O tema da desindustrialização no Brasil. Isso requer um caminho, uma política industrial para o País. O tema do custo Brasil. O tema da infraestrutura. A pergunta é custo para quem? Infraestrutura? Sim, para quem? Saúde? Em que nível e para quem? Educação e etc. A representação: como fica o tema de um cidadão um voto? Quem fala? São Paulo ou Roraima?

A reforma política – considerado no seu mais amplo espectro – produzida sem que se defina um projeto estratégico para o país é um passo certo na direção errada.

Portanto a questão que se impõe e a tomada de decisão no sentido de abrir-se a disputa política sobre que reforma política se quer e para quê quer-se reformar.

Para encerrar, vejam o voto eletrônico. Nos vangloriamos de ser o sistema mais moderno do planeta. Sim, e daí? Ele tirou a cara das pessoas, matou a pessoalidade nas relações políticas, sabonetizou a política, desubstancializando-a. Reduziu as possiblidades de intervenção do eleitor como cidadão plebiscitarizando todas as questões postas para decisão da sociedade. A sim, temos o sistema mais moderno do mundo em termos de dar a sensação de modernidade, quando na verdade, uma folha de papel e uma semana de apurações geravam um comprometimento superior da sociedade com as coisas da sociedade. O sistema americano, que os modernos daqui chamam de anacrônico, bota na mesa desde clube de mães até a grande indústria armamentista; discute-se desde Guantânamo até a expansão horizontal ou vertical das cidades, da legalização da maconha ao uso de armas, enfim, a política está inserida no mundo dos americanos que estão dispostos a irem para a política. Isso teria que ser uma conversa de alguns dias num seminário próprio. Sou dos que acreditam que em alguns aspectos o moderno ainda é ser antigo. Ou alguém aí tem algum email, torpedo ou whats-up com aquela marca de lágrima ou com aquele cheirinho de perfume que antigamente recebíamos e para o todo e sempre guardávamos em nossas caixinhas? Ah! sim, aqui um outro problema. Como é que a história será contada no futuro, se não temos mais registros das coisas que fizemos? Desde que inventamos a tecla do delete, muito de nós mesmos restou deletado. Mas…

Este passo certo, que pode ser dado na direção errada ( e esta sendo dado na direção errada) dialoga ou deve dialogar com as pretensões de poder que são legítimas em todas as camadas organizadas da sociedade. Não vou nem digredir sobre a diferença que há entre ética na política e ética da política; ética na medicina e ética da medicina, no direito e do direito. A questão é que a palavra posta com absolutez num tempo histórico cumpre um papel político. Buenas, a nós cabe dar texto e contexto, e isso nada mais é que política.

4)      As eleições de 2014

Novidade: os militantes pagos cederam lugar a uma classe média enojada com a política e com o PT. Por que?

O quadro partidário no País não permite qualquer avaliação que tenha a pretensão de verificar programas. Ou seja, os discursos são vazios e nada transparentes. Tanto Aécio quando Dilma, efetivamente agora, tem um discurso muito parecido no que pertine às intervenções macro-econômicas. Ou há alguém mais parecido com um tucano do que Joaquim Levi? Havia algum tucano mais parecido com outro tucano que Henrique Meirelles? Então, quando falou-se em Armínio Fraga, porque as histerias. Há diferenças nos modos de conduzir a política? Sim, mas as políticas são praticamente as mesmas.

A diferença fundamental entre Dilma e Aécio reside nos pressupostos de inclusão social e nas políticas sociais que deveriam ser salvas do fiscalismo normalmente praticado às escâncaras no governo FHC, isso com o chapéu dos outros, já que o sistema de contribuições à União sempre se mantiveram intactos.

Vistos os sistemas de apoio político de um e outro, é tudo igual! O pragmatismo da tomada dos nacos de estado é quem dita a política. Ou alguém estranha Eliseu Padilha ter coordenado a Campanha de Dilma no RS? Ou o Chefe da Casa Civil de Sartori ter apoiado Dilma? Ou… bem não precisamos perder tempo com lugares comuns.

Governos bem avaliados, Dilma e Tarso, deu no que deu! Tarso teve uma derrota política acachapante. E notem, que Tarso perdeu para a não proposta! A proposta de Sartori era: o que taí não dá, se entrar vou ver o que e como fazer! E ganhou!

A vitória de Dilma em Minas e a esmagadora derrota em São Paulo é outro fator a ser analisado. A vitória acachapante no nordeste brasileiro não é surpresa. O fator café com leite, é.

Então, a novidade da eleição 2014 é que um embrião de discurso começa a nascer. Infelizmente é um discurso esquizofrênico. A Oposição deitada num divam. Olhem os líderes da oposição. Agripino Maia, Onix, Rodrigo Maia… tem um Zé Serra, que não disse a que veio. Um Aécio, ainda fortalecido pelo episódio eleitoral. Mas a questão é: que setores sociais estão representados por estes políticos. São líderes de quê mesmo?

Aqui no Estado basta ver a composição para o Governo; é pra chorar em alemão. Tirando o PT, que perdeu as eleições, serão os mesmos. Todos lá outra vez. Ou seja, onde há projeto para o Estado? O que temos são planos de obras e pauta de reivindicações. Vejam as nossas agendas e planos e diagnósticos; não passam de tábuas reivindicatórias.

As redes sociais foi o centro de todas as carnificinas morais praticadas na campanha eleitoral. Relações pessoais se esfacelaram diante do FB e etc. Há intelectuais de aluguel que não passam de torcedores políticos. Os marqueteiros se lambuzam nestes ambientes facilmente artificializáveis. Então? Qual o ambiente político poderá ser construído quando as lideranças setoriais abdicam do papel de titularem a disputa política? Má vontade minha: então vejam a composição e participação das classes empresariais no conselhão do Tarso.

Sinto dizer, a principal novidade foram as bandeirinhas que voltaram às esquinas sem a paga dos militantes de aluguel. Pessoas entregaram pedacinhos do seu precioso tempo para fazer política (ou anti-política?) isso está aí para ser pensado e refletido. Todavia, não se pode perder de vista os processo de pré-copa. Os movimentos sociais daqui não conseguiram consolidar-se como fizeram os movimentos dos jovens na Europa, especialmente na Espanha. Os cenários são muito parecidos do ponto de vista dos cenários do ESTADO como instituição gestora de poder. O ESTADO EUROPEU, o Estado comunitário, é uma realidade em construção. Por lá, de certo modo, parcelas dos indignados, assumiu os ambientes políticos existentes e já, inclusive, elegeram representantes para os parlamentos, europeu, inclusive. Na mesma esteira a ultra-direita ganha espaço, como aqui também ganhou.

Ainda, e para concluir este tópico, não se pode esquecer quem em 2016 há um evento no Brasil que poderá produzir o efeito organizador nas agendas político-sociais, a Olimpíada.

5)      O Estado e suas novas aristocracias

A inapetência da classe empresarial em formular um projeto de poder – trocando-o por um projeto de incentivos fiscais – permitiu que determinados setores do próprio estado – notadamente a partir de prerrogativas outorgadas (corretamente) pela nova constituição – adquirissem um grau de autonomia (e independência) nunca antes visto. Isso se reflete na total anacronia na prestação de serviços públicos e no domínio destes setores sobre o orçamento público. A par das chamadas carreiras de estado, o judiciário puxa este processo. Note-se que carreira de estado sem estado profissionalizado é um paradoxo, para não dizer O paradoxo. Quando temos um estado profissionalizado, os mecanismos de cobrança e de transparência oferecem á sociedade determinado tipo de controle sobre agentes judiciários, fazendários e etc. O nosso modelo institucional, um modelo perneta e escabroso e quase que secreto junta numa esfera normativa única tudo o que de auto-normativo por existir em favor dessas classes de servidores e isso não só em prejuízo da sociedade, mas em prejuízo dos demais servidores, notadamente da educação, saúde e segurança (numerosos em vista do serviço prestado).

O desinteresse de setores da sociedade pelo exercício direto do poder político acaba por oferecer a estas “castas” (e não confundam meu discurso com o do caçador de marajás) um recurso que Luhmann chama de autopoiésis, ou seja, há um círculo normativo que se autorreferencia e autorreproduz de modo a perpetuar o poder ali estruturado.

Hoje, a judicialização da política é a máxima expressão destes absurdos institucionais. Os auxílios moradias, os auxílios qualquer coisa. Quem os controla? Ninguém controla o absoluto. Diria um certo revolucionário francês, com as mudanças que faço para não dar processo: o absoluto se absolutiza cada vez mais e sempre.

Então, vejam os níveis de intervenção destas aristocracias nas decisões públicas, na construção de projetos públicos. Vejam os níveis de insegurança a que qualquer empreendedor é submetido nos seus projetos, sejam eles públicos ou privados. Todos os órgãos públicos podem ter autorizado determinado empreendimento, mas se um único promotor achar que não deve existir tal investimento e um único juiz resolver conceder uma liminar, todo aparato de estado foi-se água abaixo.

Vejam as leis que são postas ladeira abaixo pela decisão liminar de um único magistrado. Peguemos o exemplo do Congresso. 513 deputados, 81 senadores, meses ou anos de discussão. Votada a matéria, um Presidente da República com a volta dos 50 milhões de votos, sanciona, e um único ministro do STF, em medida liminar semi-fundamentada retira a eficácia de um processo todo que em tese representa as opções políticas da nacionalidade. Dizem que direito é bom senso e que política é o mundo do manda quem pode. Neste caso, quem manda?

Eis o que enfrentaremos na próxima quadra histórica. Para o bem ou para o mal.

6)      E nós? Que papel temos neste processo.

O mais fácil que tem acontecido, e especialmente quando falamos de Rio Grande, é atribuir toda responsabilidade por tudo o que acontece de ruim, ao Outro.

Não somos responsáveis pelas nossas omissões, pelas nossas não-decisões. Somos reféns de um liberalismo e de alguns liberais que vivem e sobrevivem às custas do estado e de compras públicas. É o projeto de poder trocado pelo projeto de incentivos fiscais.

Onde está a Universidade nestes processos. Nós professores nos transformamos em cuidadores de clientes. Não temos mais alunos. Participamos de uma formação rastaquera que tem como único escopo (salvo as honradíssimas, mas quase falidas, exceções) ganhar dinheiro com o mercadaço que se transformou a educação superior.

Quando o mercado necessita de mão-de-obra qualificada recorre-se ao estado. Quando o Estado busca inclusão social pela universidade, tacalê o Pau Marco Véio.

São os nossos paradoxos. Já diz o Mujica no Uruguay: só fala mal de políticas sociais quem come três vezes ao dia. A mais pura verdade. Mas o importante desta afirmação reside na facilidade como abandonamos o outro pois este outro não faz parte dos nossos projetos individuais.

É de chorar em alemão as cenas vivenciadas no conselhão do Tarso. Gente com as mais rigorosas e legítimas diversidades e antagonismos sentados em torno de uma mesa a procura de um negócio que até hoje não sei o que significa: o bem comum. O que é isso? Bem comum para quem?

Ora, não é feio ser de direita, não é feio ser de esquerda. Aliás, feio é não assumir-se na esfera pública a condição política que temos o direito de ostentar e de querer ver em prática. É a assunção clara de posições políticas que nos permitirá deixar claro que a disputa política estabelecida no terreno democrático é a que constrói ventura e bons futuros. Todavia, o escamoteamento do passado só nos faz retroceder a algo que não conhecemos e a legitimar todo o tipo de irresponsável. A questão é: um dia acaba.

Portanto, precisamos nos incluir na solução dos nossos problemas, que serão muitos a partir de 2015. A nação precisa ser refundada como nação, e para tanto o poder político necessita transitar do estatal para o privado, dos funcionários para a sociedade.

7)      Conclusões

7.1.) Economicamente o país seguirá o ritmo de 2014 e assim são todas as análises produzidas;

7.2.) Politicamente há uma série de questões a serem aguardadas, especialmente a capacidade de articulação da oposição e do PMDB, fundamentalmente;

7.3.) Há bolsões de golpismo tentando se articular. Todavia, diante do posicionamento de algumas lideranças da oposição em favor dos fundamentos democráticos, cada um ficará com os Bolsonaros que merece. Não acredito haver clima para qualquer solução antidemocrática, nem no Congresso nem na sociedade;

7.4.) o Impeachment, dizem alguns, e juridicamente falando é verdade, é uma solução democrática. Todavia impeachment é ato fundamentalmente político, portanto, somente os desdobramentos dos processos relativos às questões da lava-jato e suas derivações poderão oferecer um norte mais preciso. Ao que se viu – ainda na semana passada – a Presidenta está disposta a utilizar-se de todos os recursos do regime presidencialista de coalização orçamentária para controlar o congresso; o que não é nenhuma novidade;

7.5.) O PT, definitivamente tomou para si um perfil de PRI. O resultado eleitoral do modo como aconteceu – ninguém no PT esperava um resultado tão apertado – resolveu se reinstitucionalizar. Há grupos rigorosamente desconformes com o rumos do Partido. Todavia, estes são absolutamente irrelevantes no contexto de Poder interno do Partido. Portanto, a tendência é de um PT mais à direita no sentido de construir alianças que assegurem a perenização dos grupos dominantes. O PT de matiz OLÍVIO está aí só para oferecer a veia nostálgica e a aparência de que uma discussão democrática está ocorrendo. E o pior é que são usados e tem a romântica ilusão de que haverá um redirecionamento partidário;

7.6.) As corporações de estado ficarão cada vez mais fortes e tenderão a hegemonizar o aparato de Estado cada vez mais independizando-se e criando normativas que as façam sobreviver em vista e apesar da sociedade;

7.7.) O Empresariado nacional, perdido e sem projeto para si e para o País, tem sobre si a tarefa de tomar decisões acerca do jogo político e a compreender-se como classe. Já a esquerda brasileira também perdida e, tal qual a esquerda europeia, busca bandeiras que qualquer social democrata europeu dos anos 70 assinaria. Todavia, nem uma nem outra tem nos mecanismos institucionais de representação qualquer contato ou controle. Ou tem? Não tem!

7.8.) somos um bando de ambidestros cambaleantes na busca de respostas para perguntas que não temos coragem política para formular. Somos tão diferentes uns dos outros e ao mesmo tempo, já que atiramos com as duas, vamos tão iguais.