Desemprego de jovens universitários nos EUA atinge maior nível em 60 anos
09/02/2012 | Publicado por na categoria Comportamento | PolíticaPesquisa mostra que, nos últimos três anos, índice de ocupação dessa
faixa etária caiu oito pontos
Apenas 54,3% dos norte-americanos entre 18 e 24 anos estão empregados, segundo pesquisa divulgada nesta quinta-feira (09/02) pelo Pew Research Center. Este é o pior índice registrado para este grupo de idade desde o início da série histórica do levantamento, de 1948.
Em relação ao cenário anterior à crise financeira iniciada em 2008, o percentual de ocupação dos jovens universitários caiu oito pontos – era de 62%.
Os resultados da pesquisa mostram que a crise afetou especialmente esse grupo etário, composto de calouros a recém-formados e iniciantes no mercado de trabalho, mais do que qualquer outra faixa.
O levantamento do Pew Center saiu dias após o Departamento de Trabalho dos Estados Unidos ter divulgado um dado otimista – a queda do índice de desemprego pelo quinto mês seguido. A taxa de desemprego dos EUA registrada no último mês de janeiro foi de 8,3%, face aos 9,1 d do mesmo mês no ano passado.
O índice de desemprego de jovens adultos nos Estados Unidos sempre foi mais alto do que a média, mas nunca se encontrou em um quadro tão crítico – 16,6 pontos percentuais.
Já entre adultos de 18 a 34 anos entrevistados pelo Pew, mais de um terço afirma que teve de voltar aos estudos em razão do endurecimento do mercado de trabalho. Quase um quarto afirmou ter feito um trabalho não-remunerado ou admitiu terem voltado a morar com os pais. E um entre cinco admitiram ter adiado os planos de casamento ou filhos por razões de inviabilidade econômica.
Entretanto, os entrevistados pelo Pew Center se dizem muito otimistas quanto ao futuro. 88% afirmaram que estão fazendo o necessário para atender suas necessidades agora ou que o poder de compra aumentará nos próximos anos. E, entre os entrevistados de 18 a 34 anos, 67% acreditam que seus filhos terão um padrão divida melhor que os deles.
Já entre os acima de 35 anos, esse otimismo só atinge 43%.
A Posse no Judiciário do RS – Constrangimento e vida real
06/02/2012 | Publicado por na categoria Comportamento | PolíticaÉ irônico que tenha acontecido logo no Judiciário do RS. Sim, porque, digam o que disserem, o Judiciário do RS, com todos os seus problemas, é, disparado, o melhor e mais republicano dos judiciários do Brasil. Mas, como dizia Vovô, tudo tem dois lados. Não vou, ainda, discutir o mérito da questão. O fato é que nós advogados, todos os dias, sentimos na pele o que os Juízes gaúchos, por esta via torta, sentiram nestes dias de tormento e de indefinições.
Homens dignos foram constrangidos a partir de uma convicção jurídica.
Vejam que a primeira reclamação ficou na mesa do Min. Joaquim Barbosa por eternos 11 meses. Sim, quase um ano sem decisão e, no final, o “juiz” decidiu não decidir. Ah! dia a dia dos advogados… como isso é corriqueiro nas nossas lidas. Bem, levado outro pedido para outro Juiz do STF, não entro no mérito, ele decide na hora (política) em que não poderia decidir. Ah! nosso dia a dia de advogados… como eles juízes não tem noção da vida real ou, por outro, diria o velho rábula do interiorzão: no dos outros é colírio!
Vivem os seus próprios tempos enquanto o tempo dos outros, ao deles deve ficar genuflexo. Mas, decisão judicial é pra ser cumprida, mesmo que isso rebente com a reputação de um monte de gente que ficará o resto da vida dando explicações que não seriam [nunca] devidas.
O importante disso tudo é que a vida real começa bater na porta do Poder Judiciário.
Que este episódio sirva, no mínimo, para que os senhores juízes percebam o estrago que podem fazer na vida das pessoas, de juízes, inclusive. E não adianta dizerem que são escravos das suas convicções, pois o sangue que pulsa nas veias de mulheres e homens honestos valem muito mais do que uma convicção jurídica qualquer; que o diga o Dr. Marcelo Bandeira Pereira, homem digno que dignifica o Judiciário do nosso País.
“A revolta da burguesia assalariada” – Slavoj Zizek – Publicado no Site “Opera Mundi”
01/02/2012 | Publicado por na categoria Comportamento | Diversos | PolíticaEmbora os protestos sociais em curso nos países ocidentais desenvolvidos pareçam indicar o
renascimento de um movimento emancipatório radical, uma análise mais detalhada
nos compele a elaborar uma série de distinções precisas que, de alguma forma,
embaçam essa clara imagem. Três coisas caracterizam o capitalismo de hoje: a
tendência de longo prazo de transformação do lucro em renda (em suas duas
principais formas: a renda do “conhecimento comum” privatizado e a renda pelos
recursos naturais); o papel estrutural mais forte do desemprego (a própria
chance de ser “explorado” em um emprego duradouro é percebida como um
privilégio); e a ascensão de uma nova classe que Jean-Claude Milner chama de
“burguesia assalariada” [Veja Jean-Claude Milner, Clartes de tout, Paris,
Verdier, 2011].
Para explicar a relação entre estas características, comecemos com Bill Gates: como ele se
tornou o homem mais rico do mundo? Sua riqueza não tem nada a ver com o custo
de produção daquilo que a Microsoft vende (pode-se até mesmo argumentar que a
Microsoft paga a seus trabalhadores intelectuais um salário relativamente
alto), isto é, a riqueza de Gates não é o resultado de seu sucesso em produzir
bons softwares por preços mais baixos do que seus concorrentes ou por uma
“maior exploração” de seus trabalhadores intelectuais contratados. Se este
fosse o caso, a Microsoft teria ido a falência há muito tempo: as pessoas
teriam optado massivamente por programas como Linux que são de graça e, de
acordo com especialistas, de melhor qualidade que os programas da Microsoft.
Por que, então, existem milhões de pessoas que ainda compram Microsoft? Porque
a Microsoft se impôs como um padrão quase universal, “quase” monopolizando o
setor, uma espécie de personificação direta daquilo que Marx chamou de General
Intellect (Intelecto Coletivo), o conhecimento coletivo em todas as suas
dimensões, da ciência ao prático know how. Gates se tornou o homem mais rico em
algumas décadas através da apropriação da renda pela permissão de que milhões
participem na forma do “intelecto coletivo” que ele privatizou e controla.
Deve-se transformar criticamente o aparato conceitual de Marx: por causa de sua negligência em relação à dimensão social do “intelecto coletivo”, Marx não vislumbrou a
possibilidade de privatização do próprio “intelecto coletivo”. É isto que está
no coração da luta contemporânea pela propriedade intelectual: a exploração tem
cada vez mais a forma de renda, ou, como diz Carlo Vercellone, o capitalismo
pós-industrial é caracterizado pelo “tornar-se renda do lucro” [VejaCapitalismo
cognitivo, editado por Carlo Vercellone, Roma, manifestolibri, 2006]. Em outras
palavras, quando, por conta do papel crucial do “intelecto coletivo”
(conhecimento e cooperação social) na criação de riqueza, as formas de riqueza
se tornam cada vez mais desproporcionais em relação ao tempo de trabalho
diretamente empregado na produção, o resultado não é, como Marx parecia
esperar, a autodissolução do capitalismo, mas a transformação gradual do lucro
gerado pela exploração da força de trabalho em renda apropriada pela
privatização do “intelecto coletivo”.
O mesmo acontece com os recursos naturais: sua exploração é uma das maiores fontes de renda hoje, acompanhada da luta permanente pra saber quem ficará com esta renda – os
povos do Terceiro Mundo ou as corporações ocidentais (a suprema ironia é que,
para explicar a diferença entre força de trabalho – que, em seu uso, produz
mais-valia sobre seu próprio valor – e outras mercadorias – que somente
consomem seu próprio valor em seu uso e, portanto, não envolvem exploração -,
Marx menciona como exemplo de uma mercadoria ordinária o petróleo, a própria
mercadoria que hoje é a fonte de extraordinários “lucros”…). Aqui também não
faz sentido vincular as altas e baixas do preço do petróleo com altos e baixos
custos de produção ou preços do trabalho explorado – custos de produção são
negligenciáveis, o preço que pagamos pelo petróleo é a renda que pagamos para
os proprietários deste recurso por conta de sua escassez e oferta limitada.
A consequência deste crescimento na produtividade alavancado pelo impacto exponencialmente crescente do conhecimento coletivo é a transformação do papel do desemprego: embora o “desemprego seja estruturalmente inseparável da dinâmica de acumulação e expansão que constitui a própria natureza do capitalismo enquanto tal”
[Fredric Jameson, em Representing Capital, Londres, Verso Books, 2011, p. 149],
o desemprego adquiriu atualmente um papel qualitativamente diferente. Naquilo
que, possivelmente, é o ponto extremo da “unidade dos opostos” na esfera da
economia, é o próprio sucesso do capitalismo (crescimento produtivo etc.) que
produz desemprego (produz mais e mais trabalhadores inúteis) – o que deveria
ser uma benção (menos trabalho duro necessário) se torna uma sina. O mercado
global é, assim, em relação a sua dinâmica imanente, “um espaço no qual todos
já foram, um dia, trabalhadores produtivos, e no qual o trabalho, em todos os
lugares, foi aos poucos retirando-se do sistema” [Fredric Jameson, em Valences
of the Dialetic, Londres, Verso Books, 2009, p. 580-1]. Isso é, no atual processo
de globalização capitalista, a categoria dos desempregados adquire uma nova
qualidade além da clássica noção de “exército industrial de reserva”: devemos
considerar em relação a categoria do desemprego “aquelas enormes populações,
que ao redor do mundo foram ‘expulsas da história’, que foram deliberadamente
excluídas dos projetos modernizadores do capitalismo de primeiro mundo e
apagadas como casos terminais sem esperança” [Jameson, em Representing Capital,
p. 149]: os assim chamados estados falidos (Congo, Somália), vítimas da fome ou
de desastres ecológicos, presos a “rancores étnicos” pseudo-arcaicos, objetos
da filantropia e das ONGs, ou (frequentemente os mesmos personagens) da “guerra
contra o terror”. A categoria dos desempregados deve assim ser expandida para
agregar uma população de largo alcance, dos temporariamente desempregados,
passando pelos não mais empregáveis, até pessoas vivendo nas favelas e outras
formas de guetos (todos aqueles desconsiderados pelo próprio Marx como
“lúmpem-proletariado”) e, finalmente, áreas inteiras, populações ou estados
excluídos do processo capitalista global, como os espaços em branco nos mapas
antigos.
Mas esta nova forma de capitalismo não traz também uma nova perspectiva de emancipação? Nisto reside a tese de Hardt e Negri em Multidão: guerra e democracia na Era do
Império [Rio de Janeiro: Record, 2005] onde eles pretendem radicalizar Marx,
para quem o capitalismo corporativo altamente organizado já era uma forma de
“socialismo dentro do capitalismo” (uma espécie de socialização do capitalismo,
com os proprietários tornando-se cada vez mais supérfluos), de maneira que
seria necessário apenas cortar a cabeça do proprietário nominal e nós teríamos
socialismo. Para Hardt e Negri, entretanto, a limitação de Marx foi estar
historicamente limitado ao trabalho industrial mecanicamente industrializado e
hierarquicamente organizado, razão pela qual a sua visão de “intelecto
coletivo” seria como uma agência central de planejamento; somente hoje, com a
elevação do trabalho imaterial ao padrão hegemônico, a transformação
revolucionária se torna “objetivamente possível”. Esse trabalho imaterial se
desdobra entre dois pólos: trabalho (simbólico) intelectual (produção de
ideias, códigos, textos, programas, figuras etc. por escritores,
programadores…) e trabalho afetivo (aqueles que lidam com afecções corpóreas,
de médicos a babás e aeromoças). O trabalho imaterial é hoje hegemônico no
sentido preciso em que Marx proclamou que, no capitalismo do século XIX, a
produção industrial em larga escala era hegemônica, como a cor específica dando
o tom da totalidade – não quantitativamente, mas cumprido um papel chave,
emblematicamente estrutural. Assim, o que surge é um inédito vasto domínio dos
“comuns”: conhecimento compartilhado, formas de cooperação e comunicação etc.
que não podem mais ser contidos na forma da propriedade privada – por quê? Na
produção imaterial, os produtos já não são objetos materiais, mas novas
relações sociais (interpessoais) – em suma, a produção imaterial já é diretamente
biopolítica, produção de vida social.
A ironia é que Hardt e Negri se referem aqui ao próprio processo que os ideólogos do
capitalismo “pós-moderno” celebram como a passagem da produção material para a
simbólica, da lógica centralista-hierárquica para a lógica da autopóiese e da
auto-organização, cooperação multi-centralizada etc. Negri é aqui efetivamente
fiel a Marx: o que ele tenta provar é que Marx estava certo, que a ascensão do
intelecto coletivo é, em longo prazo, incompatível com o capitalismo. Os
ideólogos do capitalismo pós-moderno estão afirmando exatamente o oposto: é a
teoria marxista (e sua prática) que permanecem dentro dos limites de uma lógica
hierárquica e sob controle centralizado do Estado, e assim não conseguem lidar
com os efeitos sociais da nova revolução informacional. Existem boas razões
empíricas para esta afirmação: de novo, a suprema ironia da história é que a
desintegração do Comunismo é o exemplo mais convincente da validade da
tradicional dialética marxista entre forças produtivas e relações de produção
com a qual o marxismo contou na sua tentativa de superar o capitalismo. O que
arruinou efetivamente os regimes Comunistas foi sua inabilidade em acomodar-se
à nova lógica social sustentada pela “revolução informacional”: eles tentaram
dirigir esta revolução com um novo projeto de planejamento estatal centralizado
de larga escala. O paradoxo, assim, é que aquilo que Negri celebra como chance
única de superação do capitalismo, é exatamente o que os ideólogos da
“revolução informacional” celebram como ascensão de um novo capitalismo “sem
fricção”.
A análise de Hardt e Negri possui três pontos fracos que, em sua combinação, explicam como o
capitalismo pode sobreviver ao que deveria ser (em termos marxistas clássicos)
uma nova organização da produção que o tornaria obsoleto. Ela subestima a
extensão do sucesso do capitalismo contemporâneo (pelo menos em curto prazo) de
privatizar o “conhecimento comum”, assim como a extensão com que, mais do que a
burguesia, são os próprios trabalhadores que se tornam “supérfluos” (número
cada vez maior deles torna-se não somente desempregado, mas estruturalmente
inempregável). Além disso, mesmo que seja verdade, em princípio, que a
burguesia está progressivamente se tornando desfuncional, deve-se qualificar
esta afirmação – desfuncional para quem? Para o próprio capitalismo. Isto quer
dizer que, se o velho capitalismo envolvia idealmente um empreendedor que
investia dinheiro (seu ou emprestado) em produção organizada e dirigida por ele
próprio, recolhendo o lucro, hoje está surgindo um novo tipo ideal: não mais o
empreendedor que possui sua própria empresa, mas o gerente especialista (ou um
conselho administrativo presidido por um CEO) de uma empresa de propriedade dos
bancos (também dirigidos por gerentes que não possuem os bancos) ou
investidores dispersos. Neste novo tipo ideal de capitalismo sem burguesia, a
velha burguesia desfuncional é refuncionalizada como gerentes assalariados – a
nova burguesia recebe cotas, e mesmo se ela possui uma parte na empresa, eles
recebem as ações como parte da remuneração pelo trabalho (“bônus por sua
gerência bem sucedida”).
Esta nova burguesia ainda se apropria da mais-valia, mas da forma mistificada daquilo que Milner chama de “mais-salário”: em geral, a eles é pago mais do que o salário mínimo
do proletário (este ponto de referência imaginário – frequentemente mítico –
cujo único verdadeiro exemplo na economia global de hoje é o salário de um
trabalhador numa sweat-shop na China ou na Indonésia), e é esta diferença em
relação aos proletários comuns, esta distinção, que determina seu status. A
burguesia no sentido clássico, assim, tende a desaparecer. Os capitalistas
reaparecem como um subconjunto dos trabalhadores assalariados – gerentes
qualificados para ganhar mais por sua competência (razão pela qual a
“avaliação” pseudo-científica que legitima os especialistas a ganharem mais é
crucial hoje em dia). A categoria dos trabalhadores que recebem mais-salário
não está, obviamente, limitada aos gerentes: ela se estende a todos os tipos de
especialistas, administradores, funcionários públicos, médicos, advogados,
jornalistas, intelectuais, artistas… O excesso que eles recebem tem duas
formas: mais dinheiro (para gerentes etc.), mas também menos trabalho, isto é,
mais tempo livre (para alguns intelectuais, mas também para setores da
administração estatal).
O procedimento de avaliação que qualifica alguns trabalhadores para receberem mais-salário é,
claramente, um mecanismo arbitrário de poder e ideologia sem nenhuma ligação
séria com a competência real – ou, como diz Milner, a necessidade de
mais-salário não é econômica, mas política: para manter uma “classe média” com
o propósito de estabilidade social. A arbitrariedade da hierarquia social não é
um erro, mas todo o seu propósito, de forma que a arbitrariedade da avaliação
cumpre um papel homólogo à arbitrariedade do sucesso de mercado. Isto é, a
violência ameaça explodir não quando existe muita contingência no espaço
social, mas quando se tenta eliminar esta contingência. É neste nível que se
deve buscar pelo que se pode chamar de, em termos um tanto vagos, a função
social da hierarquia. Jean-Pierre Dupuy [em La marque du sacre, Paris, Carnets
Nord, 2008] concebe a hierarquia como um dos quatro procedimentos (“dispositivos
simbólicos”) cuja função é fazer com que a relação de superioridade não seja
humilhante para os subordinados: a hierarquia (a ordem externamente imposta de
papéis sociais em clara contraposição ao valor imanente dos indivíduos – eu,
portanto, experimento meu menor status social como totalmente independente do
meu valor intrínseco); a desmistificação (o procedimento crítico-ideológico que
demonstra que as relações de superioridade/inferioridade não estão
fundamentadas na meritocracia, mas são resultado de lutas objetivamente
ideológicas e sociais: meu status social depende de processos sociais
objetivos, não de méritos – como diz Dupuy sarcasticamente, a desmistificação
social “cumpre o mesmo papel, em nossas sociedades igualitárias, competitivas e
meritocráticas do que a hierarquia nas sociedades tradicionais” [p. 208] – isto
nos permite evitar a conclusão dolorosa de que “a superioridade do outro é o
resultado de seus méritos e conquistas”; acontingência (o mesmo mecanismo,
porém sem a sua forma crítico-social: nossa posição em escala social depende de
uma loteria natural e social – sortudos são aqueles que nascem com melhores
disposições e em famílias ricas); acomplexidade (superioridade ou inferioridade
dependem de um processo social complexo independente das intenções ou méritos
dos indivíduos – digamos, a mão invisível do mercado pode causar o meu fracasso
ou o sucesso do meu vizinho, mesmo que eu tenha trabalhado muito mais e seja
muito mais inteligente). Ao contrário do que parece, todos estes mecanismos não
contestam ou sequer ameaçam a hierarquia, mas a tornam palatável, uma vez que
“o que desencadeia o turbilhão da inveja é a ideia de que o outro merece a sua
sorte e não a ideia oposta, a única que pode ser abertamente expressa” [p.211].
Dupuy extrai desta premissa a conclusão (óbvia, para ele) de que é um grande
erro pensar que uma sociedade que seja justa e que se perceba como justa será
assim livre de todo o ressentimento – ao contrário, é precisamente em tal
sociedade que aqueles que ocupam posições inferiores encontraram uma válvula de
escape para seu orgulho ferido em violentas explosões de ressentimento.
Aí reside um dos maiores impasses da China hoje: o objetivo ideal das reformas de Deng Xiaoping era introduzir um capitalismo sem burguesia (como classe dominante); agora,
entretanto, os líderes chineses estão descobrindo dolorosamente que o
capitalismo sem hierarquia estável (conduzida pela burguesia como nova classe)
gera permanente instabilidade – portanto, que caminho tomará a China? Mais genericamente,
esta é possivelmente a razão pela qual (ex-)comunistas reaparecem como os mais
eficientes gestores do capitalismo: sua histórica inimizade com a burguesia
enquanto classe se encaixa perfeitamente na tendência do capitalismo
contemporâneo em direção a um capitalismo gerencial sem burguesia – em ambos os
casos, como Stalin disse a muito tempo, “os quadros decidem tudo” (está
surgindo também uma diferença interessante entre a China de hoje e a Rússia: na
Rússia os quadros universitários eram ridiculamente mal pagos, eles de fato se
confundiam com os proletários, enquanto na China eles são bem remunerados com
um “mais-salário” como meio de garantir sua docilidade).
Além disso, esta noção de “mais-salário” também nos permite lançar novas luzes sobre os atuais protestos “anti-capitalistas”. Em tempos de crise, o candidato óbvio para
“apertar os cintos” são os níveis mais baixos da burguesia assalariada: uma vez
que o seu mais-salário não cumpre nenhum papel econômico imanente, a única
coisa que permite diferenciá-los do proletariado são seus protestos políticos.
Embora estes protestos sejam nominalmente dirigidos pela lógica brutal do
mercado, eles efetivamente protestam contra a gradual corrosão de sua posição
econômica (politicamente) privilegiada. Lembremos da fantasia ideológica
favorita de Ayn Rand (de seu Atlas Shrugged), a de “criativos” capitalistas em
greve – esta fantasia não encontra sua realização perversa nas greves de hoje,
que em sua maioria são greves da privilegiada “burguesia assalariada” motivada
pelo medo de perder seu privilégio (o excedente sobre o salário mínimo)? Não
são protestos proletários, mas protestos contra a ameaça de ser reduzido à
condição proletária. Isto quer dizer: quem ousa se manifestar hoje, quando ter
um emprego permanente já se tornou um privilégio? Não os trabalhadores mal
pagos (no que sobrou) da indústria têxtil etc. mas o estrato de trabalhadores
privilegiados com empregos garantidos (muitos da administração estatal, como a
polícia e os fiscais da lei, professores, trabalhadores do transporte público
etc.). Isto também vale para a nova onda de protestos estudantis: sua maior
motivação é o medo de que a educação superior não mais lhes garanta um
mais-salário na vida futura.
Está claro, obviamente, que o enorme renascimento dos protestos no último ano, da Primavera
Árabe ao Leste Europeu, do Occupy Wall Street à China, da Espanha à Grécia, não
devem definitivamente ser desconsiderados como uma revolta da burguesia
assalariada – eles guardam potenciais muito mais radicais, de forma que devemos
nos engajar numa análise concreta caso a caso. Os protestos estudantis contra a
reforma universitária em curso no Reino Unido são claramente opostos às
barricadas do Reino Unido em agosto de 2011, este carnaval consumista de destruição,
a verdadeira explosão dos excluídos. Em relação aos levantes do Egito, pode-se
argumentar que, no começo, houve um momento de revolta da burguesia assalariada
(jovens bem educados protestando contra a falta de perspectiva), mas isto foi
parte de um amplo protesto contra um regime opressivo. Entretanto, até que
ponto o protesto conseguiu mobilizar trabalhadores e camponeses pobres? Não
seria a vitória eleitoral dos islâmicos também uma indicação da base social
estreita do protesto secular original? A Grécia é um caso especial: nas últimas
décadas surgiu uma nova “burguesia assalariada” (especialmente na administração
estatal superdimensionada) graças à ajuda financeira e empréstimos da União
Europeia, e muitos dos protestos atuais, mais uma vez, reagem à ameaça de perda
destes privilégios.
Além disso, esta proletarização da baixa “burguesia assalariada” vem acompanhada do excesso
oposto: as remunerações irracionalmente altas dos grandes executivos e
banqueiros (remunerações economicamente irracionais, uma vez que, como
demonstraram as investigações nos Estados Unidos, elas tendem a ser
inversamente proporcionais ao sucesso da empresa). É verdade, parte do preço
pago por essa super remuneração é o fato dos executivos ficarem totalmente
disponíveis 24 horas por dia, vivendo assim num estado de emergência
permanente. Mais do que submeter estas tendências a uma crítica moralista,
deveríamos interpretá-las como a indicação de como o próprio sistema
capitalista não é mais capaz de encontrar um nível interno de estabilidade
autorregulada e de como esta circulação ameaça sair do controle.
Sobre o BBB12 – dizem, na Internet, que é do Veríssimo; eu gostei..
01/02/2012 | Publicado por na categoria Comportamento | DiversosQue me perdoem os ávidos telespectadores do Big Brother
Brasil (BBB), produzido e organizado pela nossa distinta Rede Globo, mas
conseguimos chegar ao fundo do poço. A nova edição do BBB é uma síntese do que
há de pior na TV brasileira. Chega a ser difícil encontrar as palavras
adequadas para qualificar tamanho atentado à nossa modesta inteligência.
Dizem que Roma, um dos maiores impérios que o mundo
conheceu, teve seu fim marcado pela depravação dos valores morais do seu povo,
principalmente pela banalização do sexo. O BBB
é a pura e suprema banalização do sexo. Impossível assistir ver este
programa ao lado dos filhos. Gays, lésbicas, heteros…todos na mesma casa, a
casa dos “heróis”, como são chamados por Pedro Bial. Não tenho nada contra
gays, acho que cada um faz da vida o que quer, mas sou contra safadeza ao vivo
na TV, seja entre homossexuais ou heterossexuais. O BBB é a realidade em busca do IBOPE.
Veja como Pedro Bial tratou os participantes do BBB . Ele
prometeu um “zoológico humano divertido” . Não sei se será divertido, mas
parece bem variado na sua mistura de clichês e figuras típicas.
Pergunto-me, por exemplo, como um jornalista, documentarista
e escritor como Pedro Bial que, faça-se justiça, cobriu a Queda do Muro de
Berlim, se submete a ser apresentador de um programa desse nível. Em um e-mail
que recebi há pouco tempo, Bial escreve maravilhosamente bem sobre a perda do
humorista Bussunda referindo-se à pena de se morrer tão cedo. Eu gostaria de
perguntar se ele não pensa que esse programa é a morte da cultura, de valores e
princípios, da moral, da ética e da dignidade.
Outro dia, durante o intervalo de uma programação da Globo,
um outro repórter acéfalo do BBB disse que, para ganhar o prêmio de um milhão e
meio de reais, um Big Brother tem um caminho árduo pela frente, chamando-os de
heróis. Caminho árduo? Heróis? São esses nossos exemplos de heróis? Caminho
árduo para mim é aquele percorrido por milhões de brasileiros, profissionais da
saúde, professores da rede pública (aliás, todos os professores) , carteiros,
lixeiros e tantos outros trabalhadores incansáveis que, diariamente, passam
horas exercendo suas funções com dedicação, competência e amor e quase sempre
são mal remunerados.
Heróis são milhares de brasileiros que sequer tem um prato
de comida por dia e um colchão decente para dormir, e conseguem sobreviver a
isso todo dia.
Heróis são crianças e adultos que lutam contra doenças
complicadíssimas porque não tiveram chance de ter uma vida mais saudável e
digna. Heróis são inúmeras pessoas, entidades sociais e beneficentes, Ongs,
voluntários, igrejas e hospitais que se dedicam ao cuidado de carentes, doentes
e necessitados (vamos lembrar de nossa eterna heroína Zilda Arns).
Heróis são aqueles que, apesar de ganharem um salário
mínimo, pagam suas contas, restando apenas dezesseis reais para alimentação,
como mostrado em outra reportagem apresentada meses atrás pela própria Rede
Globo.
O Big Brother Brasil não é um programa cultural, nem
educativo, não acrescenta informações e conhecimentos intelectuais aos
telespectadores, nem aos participantes, e não há qualquer outro estímulo como,
por exemplo, o incentivo ao esporte, à música, à criatividade ou ao ensino de
conceitos como valor, ética, trabalho e moral. São apenas pessoas que se
prestam a comer, beber, tomar sol, fofocar, dormir e agir estupidamente para
que, ao final do programa, o “escolhido” receba um milhão e meio de reais. E ai
vem algum psicólogo de vanguarda e me diz que o BBB ajuda a “entender o
comportamento humano”. Ah, tenha dó!!!
Veja o que está por de tra$$$$$$$$$ $$$$$$$ do BBB: José
Neumani da Rádio Jovem Pan, fez um cálculo de que se vinte e nove milhões de
pessoas ligarem a cada paredão, com o custo da ligação a trinta centavos, a
Rede Globo e a Telefônica arrecadam oito milhões e setecentos mil reais. Eu vou
repetir: oito milhões e setecentos mil reais a cada paredão.
Já imaginaram quanto poderia ser feito com essa quantia se
fosse dedicada a programas de inclusão social, moradia, alimentação, ensino e
saúde de muitos brasileiros? (Poderia ser feito mais de 520 casas populares; ou
comprar mais de 5.000 computadores)
Essas palavras não são de revolta ou protesto, mas de
vergonha e indignação, por ver tamanha aberração ter milhões de
telespectadores. Em vez de assistir ao BBB, que tal ler um livro, um poema de
Mário Quintana ou de Neruda ou qualquer outra coisa…, ir ao cinema….,
estudar… , ouvir boa música…, cuidar das flores e jardins… , telefonar
para um amigo… , visitar os avós… , pescar…, brincar com as crianças…, namorar… ou simplesmente dormir. Assistir ao BBB é ajudar a Globo a ganhar
rios de dinheiro e destruir o que ainda resta dos valores sobre os quais foi
construído nossa sociedade.
BBBâmos! Brindemos Luizas e edredons
26/01/2012 | Publicado por na categoria Última Instância | Comportamento
Que equação é essa?!
Quem resolveu o problema, botou os pingos nos “is”, foi o Carlos Nascimento do SBT. Ao anunciar a “volta da Luiza” do Canadá, detonou: “a Luiza voltou do Canadá e nós estamos menos inteligentes”. Na pleura, pimba na gorduchinha! Não que a Luiza seja gordinha, quis dizer que o Nascimento acertou a mosca. Tá! Não estou dizendo que a Luiza é mosca… Bem, deixa prá lá!
Ao entrar com a matéria no telejornal, foi dizendo que não era possível que dois assuntos da maior futilidade tenham tomado conta da imprensa nacional. O Fuki-Fuki bigbroderiano e a tal de Luiza – que nem sei quem é – foram capazes de dialogar com uma nação cada vez mais ansiosa e histérica por histerias e vidas alheias.
Digam o que disserem, continuo achando que o lixo cultural toma conta do mundo, e o faz na velocidade da luz; a luz que some das nossas mentes redes-socializadas. Não é prodígio brasileiro, é diarreia de dimensões globais.
Lá se vão 12 anos que consumimos o lixo do BBB e, entre milhões e milhões de reais em merchandising, nascem teses e doutores para justificar as porcarias admitidas como naturais nas nossas vidas. As estimulações descerebrantes do tipo “tá todo mundo aí, menos a Luiza, que está no Canadá”, produzem e reproduzem um tipo de pessoa que é somente pessoa, um ser vivente consumindo e consumido pelo raso e por um planeta tuitado em 140 caracteres.
E tudo regado a manchetes no Jornal Nacional, como se a chegada da Luiza fosse a chegada das tropas brasileiras alocadas no Haiti, ou os exércitos franceses abandonando o Afeganistão, ou os filhos da crackolândia voltando para suas casas, pros pais, mães e irmãos e pros solidários e anônimos cidadãos sofridos de vida popularmente vivida.
Os estupros de meninas e meninos no nordeste brasileiro mereceram menos atenção do que o “Estupro sob-edredonístico” consensual praticado em rede nacional, após bebedeira patrocinada e estimulada pelos vendedores de álcool e da ilusão de que um e meio milhão faz alguém milionário; como se ser milionário fosse capaz de fazer alguém bom. Tudo em rede nacional inebriando a formação dos nossos jovens e borbulhando a alienação de todos nós.
O estapafúrdio da cantilena é tanto que começa gerar indignações e levantes-de-saia. Em que pese a estupidez, sempre há os que rotulam os críticos destas práticas de elitistas ou de falsos eruditos ou outras coisinhas mais.
Não é crível que vivamos sob um jugo midiático dedicado, à guisa de sucesso empresarial, à expansão da miséria humana e ao abafamento das massas cinzentas.
Que gostem de BBB, que encham os espaços nobres com uma história sem pé nem cabeça, tudo bem. Mas o paradoxo está ali mesmo, nas mídias massificantes que atordoam o cotidiano com reality shows idiotas como, por exemplo, o das ricaças que bebem espumante – desculpem-me, Don Pérignon é Champagne – em taças de ouro; ao mesmo tempo, travam cruzadas éticas contra o Congresso Nacional e erigem bandeiras por uma moralidade abstrata que roga consciência à cidadania na hora do voto. É aviltante.
BBBs, pobres participantes, seduzidos a explodir suas sexualidades mediante a quase preordenada embriagues; e o país pediu o sangue de Um “determinado” em vista da “vadiagem” da Outra. Polícia, ministérios, todos mobilizados! E o programa continua no ar e no ar continuará bombando camas divididas e carnes quentes pedindo carnes quentes, intrigas, fofocas e paredões de fuzilamento moral. E a Luiza não está lá, nem no Canadá, voltou celebridade pra nossa terra, levem-na ao BBB. Por que não?
A absolvição da mídia, nisso tudo, é o mais cruel.
E nós seguimos por aí estufando o peito e pregando moral de cuecas. Enquanto isso, o lixo vai sendo jogado pra baixo dos edredons ou distribuído em doses cavalares em rede nacional de televisão.
O Nascimento, do SBT, tem razão, a mídia está cada vez menos inteligente. E nós, emburrecidos e embrutecidos, os assistimos, lemos e aplaudimos feito claque de auditório.
Será que muda? Tenho quase certeza que não!
Não há nada tão certo na vida quanto a morte na guerra! Lá, morre-se física e moralmente.
Tão certo quanto dizer que na guerra os inocentes morrem como os culpados e que, como os culpados, estarão tão mortos quanto, é afirmar que na guerra não há justiça ou bem-querenças.
Uma vez mortos, cada um caminhará ao seu Deus; uns com comemorações nas ruas, outros, com o abandono ornamentado pelo silêncio dos matadores e de seus comparsas.
A semana passada foi interessante. A guerra matou três netos de Kaddafi e, depois de 1,2 trilhões de dólares e 10 anos de árduo trabalho, os EUA mataram, em estado de guerra – é o que afirmam – Osama Bin Laden.
Tirando a morte como lugar e tema, as comemorações de rua sobre a morte de uma pessoa, desculpem-me, a mim, chamou a atenção. Por outro lado, busquei equivalências entre a morte das crianças netas do ditador, ainda assim crianças, e a do dito maior terrorista do planeta. Se as ruas de Washington empanturraram-se de gente para os vivas aos matadores, em Washington não se viu um reparo, uma crítica, uma voz levantada contra o assassinato de três crianças na Líbia, repito, mesmo netas do ditador, ainda crianças.
Num e noutro tabloide o tema foi tratado; meia dúzia de palavras e nada mais. Nas nossas mentes, o fato sequer foi estranhado. Se as crianças estavam na casa do ditador, se estavam entre o ditador e os mísseis, sempre surgirá o estúpido a afirmar a covardia de Kaddafi “usando-as” como escudo. Sim, é genial!
Tão genial quando no episódio da morte de Bin Laden, desarmado como afirmou o Secretário da Defesa dos EUA: se estava desarmado e se foi dominado pela tropa mais bem treinada das forças armadas americanas, por que matar? Ouvi um sem número de vezes tratar-se de gente rigorosamente perigosa, e ponto.
Como Júpiter, os americanos comem às suas próprias crias. A cria Saddam foi enforcada pelos fantoches do Iraque; A Cria Bin Laden, destroçada pela tropa americana em terras do Paquistão. Do Iraque, até hoje, não se comprovou as alegações de existência de armas nucleares ou de destruição em massa; Do Paquistão vem a notícia de que os mais comezinhos princípios de direito internacional foram violados. Novidade? Não! Recorram as páginas da história – não precisam ir longe – e recordar-se-ão de Granada, Haiti, Nicarágua, Panamá, e mais vários e vários eteceteras com invasões ilegais da cabeça do império. A violação do Direito Internacional é prática e especialidade dos americanos; assim afirma a ONU. Não vou nem falar dos regimes autoritários e sanguinários da América Latina flanando por décadas com a segurança dos porta-aviões USS nas nossas costas e com a garantia de transferência tecnológica em matéria de tortura e terrorismo de Estado.
Me espanta, nesta quadra do milênio 21, comemorações pela morte e, o pior, uma morte em circunstâncias que somente a história e os historiadores poderão nos contar.
Os netos de kaddafi mereciam o protesto veemente das nações civilizadas. Não porque são netos do Kaddafi, mas por serem simplesmente crianças abatidas pela estupidez da guerra.
Certa feita, um jornalista com quem debatia sobre uma tragédia própria das grandes cidades, sustentou uma posição, do meu ponto de vista, estúpida. Disse isso a ele no ar. Retorquiu-me afirmando que a ação sobre a qual debatíamos também era estúpida. Não tive outra resposta: uma estupidez mais uma estupidez, somam duas estupidezes. Não existe a possibilidade de que uma iniquidade anule a outra, elas sempre serão somadas e o resultado final desta soma, para mim, chama-se bestialidade humana a ser convertida em mortes na tolice das guerras.
Brasileirinhos… adeus! por Ricardo Giuliani Neto
08/04/2011 | Publicado por na categoria Comportamento | DiversosExpressar-me sobre a tragédia do Realengo é muito difícil. A tristeza toma conta de todos os meus poros e de todos os sentimentos que um pai pode ter pelos seus filhos e pelos filhos que não são seus e, que agora, nem mesmo são dos seus próprios pais.
Os filhinhos do Brasil estão partindo. Os caminhos pronde vão são os mais variados, mas todos os levam ao céu. Os brasileirinhos não querem o céu, nem seus pais queriam lhes dar o paraíso celeste; queriam somente o abraço quente, a lágrima sincera do provável reencontro, o embate dos corpos se juntando para os beijos e afagos de todos os dias nos finais da aula.
Ninguém quer o céu para os seus… não se deveria oferecer a morte aos inocentes.
Pra cada alma que partiu, milhões de outras tantas ficarão em sofrimento e impotência. Pra cada anjo que viajou, tormentas de lágrimas se despejarão purificando uma floresta qualquer; pra cada vivente inda não morto, vagalhões de tristeza e indignação cobrirão as nossas esperanças e mancharão os nossos futuros com a crueldade de nada termos feito pra impedir a tragédia, nada!, e de nada adiantar o lamento, pois os anjos viajam com suas almas puras, voam pelo céu do outono desencarnando impotências e pedindo que não ofereçamos vazão os desejos de vingança honesta.
O matador, pelo que já se soube, tempos atrás, já havia sido morto. Descobriu-se num sítio de relacionamentos que vingar-se-ia por “ter sido bolinado”. O matador matou-se em vida e tirando a vida de inocentes crianças retira-nos um pouco do gosto pelo viver. A loucura da esquizofrenia, dita vinda do berço – a mãe morta padeceria da doença –, não foi maior que a loucura dos humanos que, segundo o texto do “jovem louco”, provavelmente teriam provocado a mácula que o conduziu ao Realengo para matar e matar-se outra vez.
As armas do matador – roubadas, disse a polícia – reascende o tema da liberdade ou do descontrole sobre uma população armada. Bandidos vendem a morte em qualquer esquina do nosso país. E a conta? Vai paga por gente morta contadas às dúzias. A fala falsa e demagógica, a fala que agrada o senso comum, no plebiscito do desarmamento foi amplamente vencedora; e a conta vai sendo paga com o sangue daqueles que sequer compreendem, que sequer tiveram a oportunidade para compreender, o mundo dos ainda viventes.
Há loucos que matam indiretamente! Há loucos que não padecem da mácula do abuso sexual ou da esquizofrenia hereditária. Há loucos que abusam das expectativas legítimas de um povo honesto e amedrontado.
Hoje parece não existir nada além de tristeza e de consternação, mas há! Há a certeza de que as crianças morreram por conta de um País que se recusa a abandonar as falas fáceis e impopulares.
Adeus brasileirinhos! Hoje, vocês me deixaram muito triste. Espero que a chuva das tormentas desçam sobre o meu rosto e lavem minhas lágrimas todas impedindo que o mundo me veja em pranto e fazendo com que eu pareça mais um dos homens sóbrios que só desejam o melhor pra todos nós.
Tênis, jeans e camiseta de algodão azul. Ali, com a sola do pé apoiada nos ladrilhozinhos que enfeitam a parede do aeroporto estava me preparando para a despedida. Cigarro na mão e pensamento no horizonte. A porta, de abre e fecha, e as pessoas, esbaforidas pelo calor e pelo atraso, correm e quase atropelam a porta serviçal; ágil esta abertura. É o meu pensamento atormentando. Não fosse a agilidade do vai e vêm, tal qual meu pensamento, alguém já se teria espatifado.
Dia terrível. Quente por um lado, trabalhoso, por outro, e prenunciador de uma nova saudade. Estou ali para contar os dias de saudades e de desejo de ver os teus olhos e o teu sorriso. Nos últimos anos tem sido assim; vens, para logo ir.
Confesso, passamos uns 28 dias quase sempre juntos. Que dias bons. As caminhadas pelo campo, as nossas conversas sobre os nossos futuros.
Mas agora estou ali me aprontando para ser forte, para conter as emoções todas e para te desejar boa viagem e um volte correndo.
Na minha volta há tanta gente querida, um círculo concomitante de alegrias e de tristezas. Estamos felizes por estar ali e ao mesmo tempo vamos todos nos preparando para sermos dilacerados com a partida. Há algo inexplicável neste processo: abraços, beijos e olhos que perseguem os teus próprios olhos. Todos diremos que choramos de alegria por simplesmente estarmos todos juntos e nos sentindo queridos. Mentira! Choramos pela falta que de ti sentiremos por estes meses todos, por estes dias todos, pelas horas todas que buscaremos um abraço e uma palavra alegre e não a teremos só pra nós.
Troco a perna apoiada na parede de ladrilhinhos, ela já vai cansada. Ligo outro cigarro e continuo a mirar o abre e fecha da porta louca. Os meus pensamentos vagam percorrendo o teu destino e os teus desafios.
Estás pronto? O embarque se aproxima, a loucura dos que se vão, organizam filas e corações e mais, muito mais, saudades. Procuramo-nos no fundo dos nossos olhares. Aproximamo-nos um do outro, beijamo-nos na boca e nos abraçamos forte como dois homens que se amam demais. Tchau, volte logo, eu te amo; vou estar aqui na tua volta e contando todos os dias de saudades. Choramos os dois engalfinhados como que querendo nos fundir num só.
Chega o meu filho mais novo, nos abraça, e se despede, o eu te amo se repete e se repete.
E foi assim. O meu filho mais velho viajou deixando somente o cheiro de filho. Daqui há um ano, mais ou menos, vou revê-lo em calor, em coração, em lágrimas, e, mais do que qualquer coisa, daqui até lá, vou tê-lo pra mim por todos os dias nas minhas memórias e no cheiro de filho amado e querido. E quando este dia chegar, lá vou estar, bem cedo, para buscar o friozinho dos ladrilhozinhos do aeroporto para recostar-me e, enquanto espero a volta do meu amor, refletirei mirando o vai e vêm daquela porta que engole e cospe gente todos os dias.
Tetas de silicone, twitters-cibers-coronéis e armários de cristal
25/01/2011 | Publicado por na categoria Última Instância | ComportamentoToda vez que um ano sai, vem um outro para nos empanturrar com perguntas de todas as ordens. Sim! Questões vindas sabe-se lá de onde. O imponderável nasce dos atos mais singelos, enquanto o complexo abastece-se da singeleza das constatações triviais.
O velho PMDB já começa, no Governo Dilma, a negociar cargos de segundo nível a partir de chantagens alicerçadas na votação do novo salário mínimo. Surpresa? Desculpem-me, não queria ser tão direto! As respostas do ninfomaníaco partido às dificuldades de composição da amplíssima coalizão é singela: menos cargos no executivo, mais salário mínimo; mais cargos pros pemedebistas, menos salário mínimo para os brasileiros. Trivial! Não?!
Claro, tudo isso depois de longos dois dias de governo!
Vocês já pensaram sobre o seguinte fato? Uma senhora resolve colocar duas próteses de silicone, lógico, uma em cada seio. Vá lá, para efeitos de raciocínio, gruda uns 400 mililitros por mama. Até aí tudo bem. O visual fica absolutamente estonteante e a auto-estima sobe às estrelas. O sucesso da empreitada é monumental! O casamento melhora e a dona não se cansa de mirar-se em todos os espelhos e, como está escrito no gênesis, fez, viu e gostou do que fez!
Mas a questão que surge deste fato é muito complexa. Pensem cá comigo – se é que ainda já não pensaram a respeito -, morre a tal dona. Sim, como todos os mortais acontece o passamento. Enterrada nos justos sete palmos ira fazer a alegria dos bichinhos comedores de defunto. Será quase que totalmente consumida. Sobrará não mais que um monte de ossos organizados em esqueleto.
Então, a pergunta: vocês já imaginaram a cena, um esqueleto deitado com duas bolsas de 400 mililitros de silicone avolumando as costelas da ex-dona? Pois é, eu nunca tinha pensado sobre isso! E você?
São tantos os tormentos do cotidiano que a Presidenta e o PT se deixaram levar, porque quiseram ser levados, pela astúcia do PMDB de Michel Temer. Então, temer o quê? Seios de silicone sobre um esqueleto na horizontal? Um mínimo próximo ao máximo? Trivial! Não?!
Tenham a certeza de que muitos destes questionamentos rechearão o porvir. O pensamento que ataranta é sobre o futuro e sobre a capacidade da Presidenta em resistir aos arranjos políticos dos twitters-cibers-coronéis, esta nova geração de políticos que, com os pés no século XXI, mantém as cabeças fincadas no começo do século XX.
Tranqüilizem-se, caros leitores, a política é tão trivial quanto tetas de silicone salientes sobre as costelas dos esqueletos que guardamos em armários de cristal.
Entre os castelos de areia em construção – Ricardo Giuliani para Folha Popular
11/01/2011 | Publicado por na categoria Comportamento | Folha Popular- Ei! ei! você aí!, falou por detrás de uma dessas cadeirinhas de praia. – Pssiu! Ei, tu, aí!, deu dois passos e pôs-se por detrás da muralha de um castelo de areia já meio arrebentado pela fúria das pequeníssimas ondas do mar.
- Quem? Eu? E apontou o dedo indicador para o próprio peito, como um revolver direto no coração. – Tsc, tsc, tsc, não, não! Balançou a cabeça como se a fosse desenroscar do pescoço. – Tu aí, tu de chinelos, e levantava o nariz pra cima e pra baixo. – Tu aí, tu aí de chinelos, tu aí da bermuda floreada, oh bonitão! Tu aí, e se ia esgueirando entre cadeiras e guarda-sóis.
- Ah, sim… eu?
- Não chame a atenção, vem aqui, disse o guri com o ar de envergonhado, perdido entre castelos e cadeirinhas, e, olhando-se por cima dos ombros como quem foge de alguém ou de algo, arrastou-se na direção do seu objetivo.
- Tá bem, o que é?, perguntou o camarada de chinelos e bermudas floreadas. Lá todos estavam de chinelos, as bermudas floreadas tomavam conta de tudo, gente homogênea, coisas da moda; deixa pra lá. Na beira da praia iam misturados com troços típicos de beira de praia, bem ali, infestados de nordestão. – Meu, chega pra cá, convidou o desconfiado. E não menos desconfiando, o tal, ao invés de se achegar, afastou-se como quem foge de mau agouro. – Ei, ei! Vem cá, pssit, ôh!
- Tu é o cara… o da TV? O que fala do e pro mundo? Tá de boa na prainha né, tô ligado?
- Não amola! Diga o que queres e vá embora! A testa franzia como quem vê assombração. O famoso só pedia a discrição das praias do litoral sul e logo ali vai encontrar um chato de chinelos e torto de desconfiado. – falta de respeito, pensou o bonitão, “ei, ei, pssiu”, isso é jeito de falar com os mais velhos?
- Meu senhor, um favor, posso? – Pode, balbuciou o descoberto, seja ligeiro.
- Quando o senhor voltar pra TV, pode falar da gente? Desta gente esquecida e destes caminhos tão lindos que todos curtem e admiram mas que ninguém conta? O senhor pode falar de nós, meu senhor, pode?!
- Claro que sim, falou aliviado e cheio de estranheza. E o porquê tanta cerimônia e esconde-esconde?
- Me escondendo? Eu? Não, meu senhor, por aqui ninguém se esconde, só não somos vistos. Quando alguém nos põe o olho, o que o senhor vê é o que parece; parece que estamos enterrados naquilo que é tão nosso, são somente as muralhas dos nossos castelos de areia. Não nos leve a mal, leve o meu olhar e o meu desejo de um dia poder me ver na sua telinha. Pode ser? E se esgueirando por entre os castelos de areia, todos ainda em plena construção, sumiu, do mesmo jeito que havia surgido.