A velhinha mais velhinha que a velhinha – Ricardo Giuliani Neto para o Jornal Oi
14/12/2010 | Publicado por na categoria Comportamento | Crônicas | Jornal OiBom dia?! Vrrrrummmm! O zunido foi tão próximo que se tivesse feito a “mãozinha” da faixa de segurança o louco do volante ter-lhe-ia decepado o braço. Viste só o ensandecido, até parece que vai tirar o pai da forca, disse a velhinha pra outra mais velhinha ainda. Não passava das sete da manhã e elas simplesmente marcaram encontro ali na esquina da Annes Dias para, juntas, fazerem o já periódico exame de urina na Santa Casa de Misericórdia.
Meus Deus!, viste só?, que mundo corrido anda esse. Nem bem abrimos os olhos e as pessoas já se vão por aí correndo feito uns maníacos. Ninguém mais olha pra ninguém, não se dá um bom dia, um aceno de cabeça, falou a velhinha menos velhinha. É, retrucou a velhinha mais velhinha ainda, mundo perdido anda esse: a gurizada morrendo todas as noites, todos os finais de semana. Matam-se os pobrezinhos; e os pais que largam crianças pra a diversão, recebem defuntos estraçalhados pra enterrar ou queimar. Imagina só, foi a vez da menos velhinha, se boto a mãozinha na faixa, me arranca o braço, vamos!, vamos!, vamos que liberou. E uma enganchada na outra e com o caminhar ligeirinho das que navegam curvadas, transpuseram a Independência na direção da misericordiosa Santa Casa.
Menina, todos os dias espero um bom dia?, um como vai a senhora? Fico louca pra poder dizer belo dia meu rapaz!, e a família como tem andado? Como és antiga, te liga? O mundo tá noutra. Daqui, dá os bagulhinhos preu entregar pra guria da recepção, cipá que ela te dá o bom dia, disse a velhinha mais que velhinha. E apanhando os dois potinhos com a urina previamente coletada, olhou pra menos velhinha e arrematou, ando de papo com o meu neto, e se não me adaptar, não troco duas palavras com a juventude e aí, a cada dia, teremos mais e mais maníacos.
Menina, todos os dias espero um bom dia?, um como vai a senhora? Fico louca pra poder dizer belo dia meu rapaz!, e a família como tem andado? Como és antiga, te liga? O mundo tá noutra. Daqui, dá os bagulhinhos preu entregar pra guria da recepção, cipá que ela te dá o bom dia, disse a velhinha mais que velhinha. E apanhando os dois potinhos com a urina previamente coletada, olhou pra menos velhinha e arrematou, ando de papo com o meu neto, e se não me adaptar, não troco duas palavras com a juventude e aí, a cada dia, teremos mais e mais maníacos.
A Rosa Amarela de um enterro sem flores – Ricardo Giuliani Neto
10/10/2010 | Publicado por na categoria Comportamento | CrônicasO tempo estava chocho. Nem pra lá, nem pra cá. De dentro da capela mortuária não discernia direito. A escuridão vagava por todos os lados. O morto não recebia nem réstias de luz ou lambidas de claridade. Parece que no silêncio da morte não há falatórios, não existem correrias e não nos importa se há sol ou breu, se há silêncios ou cantigas, ou melhor, nestes momentos é o silêncio mesmo quem fala.
Lá, vista de fora, do corredorzinho medonho que bota lado a lado cadeiras solitárias e vigilantes sobre aquele que dali não poderá fugir, pode-se discernir as lágrimas, os soluços e a simples atenção para se ter a certeza de que aquele morto, morto mesmo morreu.
As lembranças todas vagam entre os esquifes e as pedras de paralelepípedo. Os sorrisos silentes, volta e meia, aturdem a quem tem no pranto a liturgia da despedida. Mas rir na relembrança também traz a dúvida do riso: ri-se, por que? Pela definitividade da ida?, ou pela peremptória não volta? Há enterros sem flores e esquifes floridos. Na morbidade das catacumbas tem primavera e inverno. Infernos desfeitos e paraísos retomados; há saudades precipitadas e alegrias exercidas com a contenção das liturgias noturnas.
Não há nada mais triste do que um enterro sem flores.
Sim, lá estava aquela pessoa sentada e atenta. A mirada no morto era tão segura que pouco importava o que na rua se passava; sol, chuva, vento, frio, pouco importava praquela pessoa de olhos fixos no pobre defunto. O amarelo dos dedos cruzados sobre o peito, os chumaços de algodão tampando as narinas afuncionalizadas, as pálpebras seguras pelo peso da vida vivida de um modo que não mais se desejava fazê-la voltar. Aquela pessoa, ali, olho no morto, atendia às promessas de toda uma vida: quando morresse, vou garantir que não voltes mais. Morto é morto, chega de sofrimentos, que a mortalha lhe sirva de paz e que um pedacinho da paz nos seja deixada. Assim pensava culpado o guardião da despedida esperada. Estava ali, ele, o morto, e um passado de sofrimentos prontinho pra ser mandado desta pra outra.
É, o tempo estava chocho, os caminhos andavam indefinidos e a morte da praga – era como pensava – poder-lhe-ia devolver o futuro. Credo!, que pecado cometo eu. E assim, quieto, com os pensamentos vagando pelo universo aberto pela capela mortuária, tratava de não mover um músculo. Aguardava tão-somente a hora marcada pela administração do cemitério. Por ele, chegaria direto pra parede e pro concreto onde seria lacrado para o resto dos dias dos que ficavam. Credo! Refletia e penitenciava-se diante das suas firmes convicções religiosas. Nem uma flor lhe trouxe, mas ele não merece flor nenhuma.
De quando em quando um cortejo fúnebre era emoldurado pela portinha da pequeníssima mortualha. O esquife e o morto, estava posto de frente pra nesga de luz que teimava em não entrar. Gente a mais gente caminhando e perseguindo defuntos; defuntos não são nem pobres e nem ricos, são simplesmente defuntos. Os queridos deixavam pelo percurso lágrimas sinceras de despedidas sentidas. E lá, aquela pessoa, com o rabo do olho, sentia os movimentos tranquilos dos que dão adeus flertando com uma vida que deverá voltar ou com um reencontro que as crenças da religião asseguram acontecerá. Ele esperava pra fazer o cortejo de um só, o cortejo de um só, um só que acompanha só um pro fim definitivo dos dias.
Não há nada mais triste que um enterro sem flores.
Aquela solitária pessoa só pensava em livrar-se daquele monte de carnes inertes pra logo voltar pra sua vidinha. Somente quero ter uma vida, pensava ele com os olhos fixos no cadáver. Pois é, pensou, os mortos não fazem mal a ninguém, bem poderia ter-lhe trazido uma flor. Foi então que se levantou, deixou a cadeira solitária cuidando o defundo e quebrando as promessas de quase toda sua vida tirou os olhos do morto e caminhou pra fora da escuridão. Foi-se ao passeio de pedras e ajoelhando-se com piedade de si e dos seus apanhou a rosa amarela que se havia perdido entre os passos de um cortejo desses onde se leva pro céu alguém que sempre tanto se quis. Com a rosa nas mãos, mirou o horizonte, encarou o lusco-fusco do dia, e sem voltar-se pra trás, deixou o seu morto, quebrou sua promessa; pelo caminho de pedras andou procurando um destino e pedindo um ente querido que merecesse sua flor.
http://www.youtube.com/watch?v=Z2mf8DtWWd8