Ângela Merkel e o novo nacionalismo alemão – Flávio Aguiar – Carta Maior
14/02/2012 | Publicado por na categoria Diversos | PolíticaEntre os germânicos, termo se transforma, renascendo como uma defesa
intervencionista e necessária do ideário neoliberal.
“Nacionalismo” é uma palavra maldita nestas Europas. É associaada, sistematicamente, a fanatismo, racismo, xenofobia, extrema-direita, populismo.
Uma grande parcela da intelectualidade europeia (e latino, norte-americana e também brasileira) chegou a decretar que a palavra “nação” deveria
ser deletada dos dicionários, em tempos de criação da União Européia, do fim do comunismo, e do fim da história (lembram desse fim?).
Apesar de que as nações continuassem a emitir passaportes, letras do tesouro (como hoje), dinheiro (como hoje), contrair empréstimos (como hoje), etc. E a
fazer guerras horrendas, como nos Bálcãs. Aquela grande parcela preferia fixar-se nos seus avatares semânticos a analisar o que acontecia além das
lindes dos campi universitários – lá fora – no mundo, por assim dizer. Preocupações identitárias também passaram a ser anátema: coisa de
“latino-americanos retardatários”.
Os nacionalismos não desapareceram. Nem as nações. Basta olhar hoje a Europa que treme sob a adrenalina quinzenal que os problemas do euro derramam nas
bolsas, nos parlamentos, e nas veias do mundo inteiro. A City londrina recusa-se a se colocar sob a supervisão financeira de Bruxelas e Frankfurt.
Nicolas Sarkozy se viu forçado a aceitar a liderança germânica na frente europeia – mas resmungando – e isso pode lhe custar a reeleição em abril/maio.
Na frente do Parlamento grego, nesta terça-feira (07/02), manifestantes queimaram uma bandeira alemã. A zona do euro soçobra devido à disparidade nas
diversas políticas econômicas nacionais postas em curso sob o escudo único da nova moeda. Não só isso: depois de um documento confidencial do Ministério das Finanças
alemão recomendar a nomeação de um interventor financeiro na Grécia (depois da “troika”, o Banco Central Europeu, o FMI e a Comissão Européia, ter
nomeado um interventor no governo), a dupla Merkozy aventou a proposta de criar uma “conta bancária bloqueada” para depositar as ajudas financeiras
àquele país, só liberando-se fundos com a anuência dos administradores do bloqueio, ou seja, a “troika”, ou seja, Merkozy, ou seja, Ângela Merkel.
Entretanto, há um país em que esses “nacionalismos” não parecem ter eco: a Alemanha. Claro: existe o velho nacionalismo rançoso de extrema-direita,
neo-nazi. Mas ele é minoritário, embora perigoso. Claro: existe a xenofobia difusa que vê no estrangeiro, particularmente no imigrante muçulmano, uma
ameaça, assim como existe um racismo difuso no Brasil. Mas não é a isso que me refiro. Outro tipo de nacionalismo está em ascensão.
É um nacionalismo baseado no que se pode chamar “as virtudes teologais do capitalismo alemão”. A Alemanha deve servir de exemplo para a Europa e
para o mundo, graças à sua contenção, à sua fidelidade aos “planos de austeridade”, ao seu exemplo de ter comprimido salários e aumentado a
idade da aposentadoria, ao seu exemplo de uma fidelidade à toda prova ao ideário liberal de von Hayek, que permanece hegemônico nas suas universidades,
no pensamento econômico e na vulgata midiática sobre a crise européia, um ideário a que mesmo o social-democrata SPD e o anti-atômico Partido Verde
parecem ter sucumbido.
Essa “fidelidade virtuosa” tudo justifica – inclusive a intervenção alemã nos assuntos internos de outros países.
Na terça-feira, o jornal conservador Die Welt publicou um editorial justificando a intervenção de Ângela Merkel na próxima eleição francesa. Seus
termos são exemplares:
“É digno de elogios que o Ministro de Relações Exteriores da Alemanha,
Guido Westerwelle, tenha observado, quanto à campanha de Merkel a favor de
Sarkozy, que o governo alemão não é candidato na eleição francesa. No entanto,
nesta nova e mudada Europa, ele o é, na verdade. Sobretudo por causa do futuro
que Merkel vê para o continente. Uma visão que os socialistas franceses não
compartilham. Nunca antes a Alemanha interferiu tão fundo na política interna
francesa. Quebrou-se um tabu, mas o momento foi oportuno. O candidato
socialista, François Hollande, com seu retorno ao calendário esquerdista dos
anos 1970, confunde os eleitores de todos os modos possíveis, com suas
promessas de campanha, que contrariam toda a razão econômica.
O Programa dos 60 Pontos, de Hollande, é uma seleta do populismo de esquerda.
No futuro, os franceses poderão de novo se aposentar aos 60 anos, os impostos
deverão ser fartamente aumentados, o setor público incrementado, os mercados
financeiros regulamentados e os bancos fragmentados.
Dado esse socialismo retrô, não surpreende que ele queira denegar o pacto
fiscal e introduzir as letras do euro (“euro bonds”) e, é claro, usar
o Banco Central Europeu como uma impressora de dinheiro. A vitória de Hollande
significaria o fim da liderança franco-alemã na Europa. Embora apenas os 45
milhões de eleitores franceses possam depositar seus votos nas urnas, a votação
é importante para todos na Europa”.
O editorial, convenhamos, é brilhantemente claro na sua pregação desabusada e arrogante, e não deixa dúvidas, pelas afirmativas que faz sobre a possível
futura França, devendo-se se assumir as negativas na Alemanha da hegemonia conservadora. Ou seja, a Alemanha deve ser o país exemplar onde os impostos
retroagem, onde o mundo financeiro não tem regulamentação, o setor público encolhe, as aposentadorias são restringidas, e os bancos imperam, unidos e
protegidos. E este é o universo ideal, “prächtig” (vistoso, magnífico, faustoso, suntuoso, excelente) para a Europa e o mundo. Em nome dele, que se intervenha na França e que se esmigalhe a Grécia.
Essa euforia conservadora dá frutos à chanceler alemã. Numa pesquisa divulgada na quarta-feira, seu partido, a CDU/CSU, aparece com 38% das intenções de voto,
tendo crescido 2 pontos percentuais. Em compensação, seu parceiro de coligação, o FDP, aparece com 3%. Ou melhor, “desaparece”, pois com esse
percentual não atingiria a cláusula de barreira e ficaria de fora do futuro Bundestag.
O SPD social-democrata tem 27%, e os Verdes caem alguns pontos para 13%. A Linke fica estável em 8% e, o surpreendente Partido Pirata aparece com 7%.
Depois de conquistar cadeiras no Parlamento de Berlim, os Piratas teriam, pela primeira vez, uma representação num parlamento nacional de país europeu – e
logo no Bundestag.
Com esse resultado (a eleição é em 2013) o mais provável é que voltasse a se formar uma “Grande Coalizão”, ou seja, um governo CDU/CSU + SPD.
Esse seria o ideal para esse novo nacionalismo difuso alemão, proclamado virtuosamente pelo Die Welt (“O Mundo”, lembrando que Welt, em
alemão, é palavra feminina). Inclusive porque neutralizaria o novo perigo que se avizinha. Mesmo com resistências ao “radicalismo” francês, o SPD
se posicionou a favor de Hollande.
Imaginem se o “mau exemplo esquerdista” deste pega do lado de cá do Reno! Aquela sacrossanta “razão econômica” iria para o beleléu.
Artigo publicado originalmente em Carta Maior.
A decisão do STF de “suspender” a posse da nova Direção do TJ convida o judiciário brasileiro ao divã. O caso do RS, o melhor judiciário do País, em certa medida, é irônico. Ao episódio, somem-se os fatos relativos aos poderes do CNJ, os jetons para votar no TJ/RJ, os auxílios tapa-goteiras do TJ/SP e, por assim dizer, a metáfora dos “bandidos de toga”, juízes-humanos,
da Ministra Eliana Calmon.
O Sargento Garcia ainda não prendeu o Zorro e o Min. Joaquim Barbosa ficou com a “reclamação” do Des. Werlang por longuíssimos 11 meses, para NÃO decidir. Sim, como nós outros, comuns mortais, sentiu na carne o judiciário gaúcho os efeitos da morosidade judicial e as consequências de uma decisão que chega sem compromisso algum com a vida vivida. Nós advogados, nós sociedade, passamos por isso todos os dias; e reclamar, para quem? Freud, a seu tempo, explicará?
Os ambientes blindados dos gabinetes, Supremos ou comuns, estão produzindo e encorpando um processo que põe em xeque o outrora mais acreditado dos poderes da República.
A crescente politização das cúpulas judiciárias, por intermédio da forte ação sindical das associações de juízes, traz à baila aquilo que Slavoj Zizek chama de “burguesia assalariada” e, no caso do RS, com a ação e o discurso do Des. Werlang, torna pública uma tensão real existente dentro do Judiciário. Há uma “guerra de conquista” deliberada na direção da
posse de um dos poderes da República para uma classe de funcionários.
Se há razão em quem “reclama”, não sei. Tenho opinião sobre isso e nós, sociedade, somos vencedores com a Decisão do STF que manteve os poderes democráticos do CNJ para investigar Magistrados-humanos e prestar contas aos brasileiros.
A navalha sentida na carne dos Eminentes Desembargadores gaúchos deve, no mínimo, servir para que percebam o grau de inquietude que toma conta dos cidadãos quando, dos Juízes, buscamos “decisão útil” e sucumbimos nas antessalas de gabinetes que teimam em não sentir a dor, a urgência e o cheiro dos que lhes procuram. Um Ministro do STF ficar 11 meses com uma ação para, ao fim, declarar-se impedido, nada mais é do que a repetição do que presenciamos no dia a dia dos foros.
Oremos o verso de Silva Rillo: “o fio que dói em quem morre/ na mão que abate, não dói.
Não há democracia sem Judiciário forte, e nem sociedade forte sem controle sobre o seu Poder Judiciário. É hora, no mínimo, de divã.
Jamais deixo de atribuir o dom da inteligência a quem quer
que seja. Então, confesso-lhes, fiquei, cá com meu botões e desconfianças, a
refletir sobre os motivos do Governador para, tão abruptamente, anunciar que no
Estado pode faltar tudo, menos dinheiro. Ao “não chorar pitangas” declarou,
pela primeira vez e sem rodeios, no Rodeio Internacional de Vacaria, “não
faltará dinheiro”. Segundo a Rosane Oliveira, em cerimônia pública, o
Governador reafirmou esta condição e o fez em discurso peremptório. Que bom! Mas
como é que isso sai do discurso e vem pra vida real? Simples! Vejam só.
A União pagará, em valores líquidos, para a CEEE algo em
torno de R$ 2,3 bilhões de reais, em três parcelas. O Governador afirma que
tais valores somente poderiam ser utilizados na CEEE e em obras de
infra-estrutura energética. Sim! Tais investimentos, segundo ele próprio,
seriam de médio e longo prazos, portanto, já que as disponibilidades
financeiras da CEEE submetem-se ao chamado Caixa Único ou Sistema Integrado de
Administração Financeira, temos a chave do negócio.
Vejam, se os investimentos da CEEE ocorrerão no médio e
longo prazos, pode-se, no curto, lançar mão de tais “dinheiros” e “investi-los”
em outras coisas e lugares que não na CEEE. Após, uma vez “gasto” o dinheiro da
CEEE no Curto Prazo, no atual Governo, produzir-se-ão reposições capazes de, no
médio e longo prazos, “repor” os dinheiros da Companhia. Pimba!
O procedimento é legal, mas, não sei – ou sei – se é
adequado aos interesses dos Gaúchos e da CEEE. Pergunta 1: qual é o custo
financeiro do passivo de curto prazo da CEEE? Pois é, para começar o baile, fiquemos
na pergunta 1.
Uma coisa é muito certa, de fato, dinheiro haverá! A questão
que os gaúchos precisam saber – decidir nem falo – é se esta política, no médio
e, principalmente, no longo prazo, interessa ao Estado e à sua sociedade. Ao
Governo atual – do mesmo modo que a Yeda fez com a “capitalização” do Banrisul
destinando “os dinheiros” para “tapar buracos” em estradas – tenho certeza que
interessa.
Buenas, saio do tema para que não me chamem de agourento ou
mau Gaúcho. Mas afirmo que soluções aparentemente sofisticadas não passam de
grosseiras simplificações capazes de azeitar “bons” discursos, e só. A conta?
Ah!, deixa assim, já sabemos quem pagará.
Esta é do Blog da Rosane Oliveria da Zero Hora – É conferir para, amanhã ou depois, cobrar … ou ver no que vai dar!!!
09/02/2012 | Publicado por na categoria PolíticaPosted: 08 Feb 2012 12:55 PM PST
No discurso que fez hoje em um Dia de Campo do Irga, o governador Tarso Genro repetiu o que vem dizendo nos últimos dias, cada vez com mais veemência: que não faltará dinheiro para cumprir o que está previsto no orçamento. Disse mais: se os secretários não investirem é porque não estão tendo competência, porque ele tem dinheiro para liberar:
- Temos recursos para investir, para pagar salário e para pagar as contas – disse o governador, lembrando um passivo de R$ 160 milhões em obras não pagas pelo governo anterior. Exaltado, Tarso disse que não está fazendo o marketing das finanças saneadas, mas mostrando que o Rio Grande do Sul “está viabilizado”, vai investir em infraestrutura e ele não ficará “chorando as pitangas”, como fizeram outros governadores.
Assista aqui ao vídeo do discurso do governador:
Desemprego de jovens universitários nos EUA atinge maior nível em 60 anos
09/02/2012 | Publicado por na categoria Comportamento | PolíticaPesquisa mostra que, nos últimos três anos, índice de ocupação dessa
faixa etária caiu oito pontos
Apenas 54,3% dos norte-americanos entre 18 e 24 anos estão empregados, segundo pesquisa divulgada nesta quinta-feira (09/02) pelo Pew Research Center. Este é o pior índice registrado para este grupo de idade desde o início da série histórica do levantamento, de 1948.
Em relação ao cenário anterior à crise financeira iniciada em 2008, o percentual de ocupação dos jovens universitários caiu oito pontos – era de 62%.
Os resultados da pesquisa mostram que a crise afetou especialmente esse grupo etário, composto de calouros a recém-formados e iniciantes no mercado de trabalho, mais do que qualquer outra faixa.
O levantamento do Pew Center saiu dias após o Departamento de Trabalho dos Estados Unidos ter divulgado um dado otimista – a queda do índice de desemprego pelo quinto mês seguido. A taxa de desemprego dos EUA registrada no último mês de janeiro foi de 8,3%, face aos 9,1 d do mesmo mês no ano passado.
O índice de desemprego de jovens adultos nos Estados Unidos sempre foi mais alto do que a média, mas nunca se encontrou em um quadro tão crítico – 16,6 pontos percentuais.
Já entre adultos de 18 a 34 anos entrevistados pelo Pew, mais de um terço afirma que teve de voltar aos estudos em razão do endurecimento do mercado de trabalho. Quase um quarto afirmou ter feito um trabalho não-remunerado ou admitiu terem voltado a morar com os pais. E um entre cinco admitiram ter adiado os planos de casamento ou filhos por razões de inviabilidade econômica.
Entretanto, os entrevistados pelo Pew Center se dizem muito otimistas quanto ao futuro. 88% afirmaram que estão fazendo o necessário para atender suas necessidades agora ou que o poder de compra aumentará nos próximos anos. E, entre os entrevistados de 18 a 34 anos, 67% acreditam que seus filhos terão um padrão divida melhor que os deles.
Já entre os acima de 35 anos, esse otimismo só atinge 43%.
Governo vê riscos de crise da PM se alastrar para seis Estados – Folha de São Paulo
08/02/2012 | Publicado por na categoria PolíticaEsta matéria está publicada na Edição Eletrônica da Folha de São Paulo de Hoje, 08/02/2012. Não há fantasias da minha parte. Observem que o RS esté entre os focos da preocupação expressa pelo Governo Federal. lei a íntegra:
De São Paulo
Após a greve de policiais militares que já dura uma semana na Bahia, o governo federal vê risco elevado de que o problema se alastre para mais seis Estados. São eles: Rio de Janeiro, Pará, Paraná, Alagoas, Espirito Santo e Rio Grande do Sul.
A informação é de reportagem publicada na edição desta quarta-feira da Folha. A reportagem
completa está disponível para assinantes do jornal e do UOL, empresa controlada pelo Grupo Folha, que edita a Folha.
O Rio é considerado o local mais crítico, inclusive pelo temor de haver cenas violentas às vésperas do Carnaval, daqui a dez dias. A PM do Estado deve decidir amanhã se para ou não.
A presidente Dilma Rousseff foi comunicada de que o levante baiano fazia parte de uma articulação nacional para pressionar o governo a apoiar, no Congresso, a aprovação da PEC 300. A proposta de emenda constitucional estabelece um piso salarial para bombeiros e PMs.
O giro à esquerda dos socialistas franceses (publicado na Carta Capital)
07/02/2012 | Publicado por na categoria Diversos | PolíticaFrançois Hollande deixa para trás o “socialismo liberal” e elege “mundo das finanças” como seu maior adversário.
A dinâmica positiva que o socialismo francês colocou em marcha não se detém desde que, no ano passado, organizou as primárias para designar o candidato às eleições presidenciais de
abril e maio. Segundo reiteradas pesquisas de opinião, François Hollande conserva
sempre uma folgada vantagem sobre o presidente Nicolas Sarkozy, que aspira a
reeleição, mas que ainda não lançou oficialmente sua candidatura.
Pela primeira vez nos últimos 20 anos, o socialismo francês assumiu francamente
sua identidade e colocou sobre a mesa um programa de clara inspiração de
esquerda. Em dois atos sucessivos, o candidato do PS fixou um rumo tanto mais
inédito quanto propor uma plataforma de esquerda para uma época de profunda
crise do liberalismo.
Nas últimas duas semanas, Hollande deixou para trás a linha “socialismo
liberal” de seus antecessores, as ridículas polêmicas dentro de seu campo e a
imagem de homem brando, indeciso, instável e inconsistente que a direita
francesa e a imprensa tinham tecido em torno dele. François Hollande entrou de
cheio na eleição presidencial com um discurso combativo, anti-consensual,
marcado por um contundente giro à esquerda e uma frase que diz tudo: “meu
adversário, meu verdadeiro adversário não tem nome, nem rosto, nem partido.
Nunca apresentará sua candidatura e, consequentemente, não será eleito. Ainda
assim, esse adversário governa. Esse adversário é o mundo das finanças”. Frase
chocante que teve um sólido impacto na opinião pública e no próprio campo
conservador.
Durante esse discurso, Hollande detalhou seis medidas para regular os mercados
financeiros e lançou uma clara advertência aos “delinquentes financeiros, os
fraudulentos, os pequenos selvagens”. O homem moderado e em aparência tímido se
vestiu de guerreiro da cruzada contra a impunidade do sistema financeiro. A
leitura imediata desse discurso não se fez esperar, tanto na opinião pública,
que o percebeu como uma iniciativa para restaurar a política para além dos
mercados, como dentro da direita.
O primeiro a medir o impacto do que poderia acontecer nas eleições
presidenciais de abril e maio foi o próprio presidente francês. Nicolas Sarkozy
oficializou sua candidatura à reeleição mediante um leque de confidências em
off de alto valor negativo. “Se fracasso, deixo a política. É uma certeza!”,
disse Sarkozy a um grupo de jornalistas. Até agora, sua candidatura à reeleição
era virtual, mas o presidente a fez passar ao terreno do quase real com uma
perspectiva negativa.
A bateria de pesquisas de opinião adversas, o lugar ocupado pelo candidato
socialista na preferência do eleitorado e o efeito que teve o discurso de
Hollande introduziram um fator de pessimismo. Não obstante, hábil como poucos,
as confidências de Sarkozy são um plano de pré-campanha que foi se
aperfeiçoando nas últimas semanas. Entre confidências em off e intervenções
perfeitamente programadas de seus assessores mais próximos, Sarkozy ataca o
candidato socialista da sombra e sem haver ainda posto um pé na campanha
eleitoral. Segundo o vespertino Le Monde, na mesma reunião com os jornalistas,
o mandatário disse: “Em todo caso, estou perto do final. Pela primeira vez na
minha vida, me encontro de frente com o final da minha carreira”.
O presidente francês está seguro de que vai esmagar seu rival. Entretanto, o
socialismo francês colocou várias peças chave no tabuleiro presidencial. Os
socialistas realizaram uma tripla operação. Sem citá-lo sequer, François
Hollande atacou Sarkozy por seus laços conhecidos com o sistema financeiro,
atraiu à suas filas os setores mais radicais da esquerda francesa e apagou sua
imagem de homem indeciso. O discurso durante o qual lançou sua campanha está
cheio de frases contra os reis do dinheiro e de um sexteto de medidas bem
claras.
A primeira consiste em votar uma lei que obrigará os bancos a “separar suas
atividades de crédito das operações especulativas”. Mais ofensivo ainda,
Hollande anunciou que “proibirá pura e simplesmente os produtos financeiros sem
relação com as necessidades da economia real”. O líder do PS completou logo seu
dispositivo com a apresentação de seu programa eleitoral. Trata-se de um
projeto destinado “à mudança” que consta de umas 60 medidas políticas e
econômicas avaliadas em cerca de 20.000 milhões de euros.
Segundo Hollande, esse pacote de medidas será financiado com os 29 bilhões
obtidos com a supressão das isenções fiscais – uma boa parte destas decididas
por Sarkozy. Segundo o candidato do PS, seu plano acarretará em um aumento de
1% no gasto público. Toda a arquitetura destas 60 propostas gira em torno do
que Hollande chamou “um ajuste realista” que, segundo esclareceu, nunca perderá
de vista a justiça social.
O representante do partido da rosa adianta um mandato muito diferente ao de
Sarkozy. Se ganhar a eleição, disse, sua primeira decisão consistirá em aprovar
a reforma fiscal e financeira com a meta declarada de incrementar os impostos
“aos que mais ganham, aos bancos e às grandes empresas”. A ruptura com a
política fiscal de Sarkozy é espetacular. Logo no começo de seu mandato,
Nicolas Sarkozy aprovou o polêmico “escudo fiscal” com o qual limitou o
porcentual impositivo dos ricos. Hollande toma o caminho contrário: o imposto
de renda aumentará dos 41% atuais a 45% para os que ganham mais de 150.000
euros por ano.
O lema socialista desta eleição 2012 é “a igualdade, a juventude, a educação e
a justiça”, disse François Hollande em sua apresentação à imprensa. Todo o
esforço socialista parece orientado a desandar os passos de Sarkozy. O
aspirante do PS prometeu que se for eleito em maio próximo voltará a negociar o
tratado europeu pactuado no ano passado entre Sarkozy e a chanceler alemã
Angela Merkel.
Há muito tempo que os socialistas não expunham programa tão ambicioso, ainda
mais quando este se desdobra em plena crise, com medidas como a preservação dos
grandes grupos estatais, a criação de um banco público de investimento ou a
introdução de um sistema de poupança isenta de impostos e destinada às pequenas
e grandes empresas. As reformas propostas por François Hollande retomam os
esquecidos hinos da social-democracia européia, convertida ao ultra liberalismo
nos últimos 20 anos: reformar para redistribuir a riqueza, reformar para
equilibrar a justiça social.
Faltam mais de dois meses para o primeiro turno da eleição presidencial, mas
pouco a pouco, o PS francês instalou na opinião pública a validade de um
programa de forte inspiração socialdemocrata, a idéia de que há vida fora do
dogma ultra liberal, o princípio básico de que os bancos não podem fazer o que
lhes dê vontade e que, para todas estas coisas, a ação política e o Estado
podem voltar a ter um sentido.
*Tradução: Libório Junior
Professores+Brigadianos+Policiais Civis= Porca Torcendo o Rabo
07/02/2012 | Publicado por na categoria PolíticaEstá para acontecer uma combinação interessante no começo de 2012. Não são os planetas que se estão alinhando. Categorias profissionais começam a ter suas tensões salariais “harmonizadas” (no sentido político da expressão) pelas inabilidades e falas fáceis e qrandiloquentes do governo.
O envio da proposta de reajuste salarial do magistério (que publicamente o CPERGS rejeita) para a Assembleia Legislativa, exatamente no momento em que brigadianos e policiais civis começam a conversar nacionalmente sobre os seus movimentos reivindicatórios, perfaz uma equação e tanto; explosiva, sem trocadilhos.
Para “melhorar” o quadro, o estouro de otimismo do Senhor Governador que diz não mais existirem problemas de dinheiro no Estado, conforma um ambiente e tanto para que os servidores peçam o “cumprimento das promessas de campanha”. Não sei sobre qual orçamento fala o governador, o que eu conheço não o autorizaria a tanto, mas, tá bem, ele é o governador e deve conhecer o orçamento do Estado e suas carências.
Não quero nem lembrar o tema da previdência e a possibilidade de que o Rio Grande do Sul tenha-se transformado numa Autaquia “sui generis” da União, já que tudo o que acontece por aqui, vem de lá.
Se é assim, que assim seja! Só não quero ver a porca torcer o rabo lá pras bandas da praça da matriz.
A Posse no Judiciário do RS – Constrangimento e vida real
06/02/2012 | Publicado por na categoria Comportamento | PolíticaÉ irônico que tenha acontecido logo no Judiciário do RS. Sim, porque, digam o que disserem, o Judiciário do RS, com todos os seus problemas, é, disparado, o melhor e mais republicano dos judiciários do Brasil. Mas, como dizia Vovô, tudo tem dois lados. Não vou, ainda, discutir o mérito da questão. O fato é que nós advogados, todos os dias, sentimos na pele o que os Juízes gaúchos, por esta via torta, sentiram nestes dias de tormento e de indefinições.
Homens dignos foram constrangidos a partir de uma convicção jurídica.
Vejam que a primeira reclamação ficou na mesa do Min. Joaquim Barbosa por eternos 11 meses. Sim, quase um ano sem decisão e, no final, o “juiz” decidiu não decidir. Ah! dia a dia dos advogados… como isso é corriqueiro nas nossas lidas. Bem, levado outro pedido para outro Juiz do STF, não entro no mérito, ele decide na hora (política) em que não poderia decidir. Ah! nosso dia a dia de advogados… como eles juízes não tem noção da vida real ou, por outro, diria o velho rábula do interiorzão: no dos outros é colírio!
Vivem os seus próprios tempos enquanto o tempo dos outros, ao deles deve ficar genuflexo. Mas, decisão judicial é pra ser cumprida, mesmo que isso rebente com a reputação de um monte de gente que ficará o resto da vida dando explicações que não seriam [nunca] devidas.
O importante disso tudo é que a vida real começa bater na porta do Poder Judiciário.
Que este episódio sirva, no mínimo, para que os senhores juízes percebam o estrago que podem fazer na vida das pessoas, de juízes, inclusive. E não adianta dizerem que são escravos das suas convicções, pois o sangue que pulsa nas veias de mulheres e homens honestos valem muito mais do que uma convicção jurídica qualquer; que o diga o Dr. Marcelo Bandeira Pereira, homem digno que dignifica o Judiciário do nosso País.
“A revolta da burguesia assalariada” – Slavoj Zizek – Publicado no Site “Opera Mundi”
01/02/2012 | Publicado por na categoria Comportamento | Diversos | PolíticaEmbora os protestos sociais em curso nos países ocidentais desenvolvidos pareçam indicar o
renascimento de um movimento emancipatório radical, uma análise mais detalhada
nos compele a elaborar uma série de distinções precisas que, de alguma forma,
embaçam essa clara imagem. Três coisas caracterizam o capitalismo de hoje: a
tendência de longo prazo de transformação do lucro em renda (em suas duas
principais formas: a renda do “conhecimento comum” privatizado e a renda pelos
recursos naturais); o papel estrutural mais forte do desemprego (a própria
chance de ser “explorado” em um emprego duradouro é percebida como um
privilégio); e a ascensão de uma nova classe que Jean-Claude Milner chama de
“burguesia assalariada” [Veja Jean-Claude Milner, Clartes de tout, Paris,
Verdier, 2011].
Para explicar a relação entre estas características, comecemos com Bill Gates: como ele se
tornou o homem mais rico do mundo? Sua riqueza não tem nada a ver com o custo
de produção daquilo que a Microsoft vende (pode-se até mesmo argumentar que a
Microsoft paga a seus trabalhadores intelectuais um salário relativamente
alto), isto é, a riqueza de Gates não é o resultado de seu sucesso em produzir
bons softwares por preços mais baixos do que seus concorrentes ou por uma
“maior exploração” de seus trabalhadores intelectuais contratados. Se este
fosse o caso, a Microsoft teria ido a falência há muito tempo: as pessoas
teriam optado massivamente por programas como Linux que são de graça e, de
acordo com especialistas, de melhor qualidade que os programas da Microsoft.
Por que, então, existem milhões de pessoas que ainda compram Microsoft? Porque
a Microsoft se impôs como um padrão quase universal, “quase” monopolizando o
setor, uma espécie de personificação direta daquilo que Marx chamou de General
Intellect (Intelecto Coletivo), o conhecimento coletivo em todas as suas
dimensões, da ciência ao prático know how. Gates se tornou o homem mais rico em
algumas décadas através da apropriação da renda pela permissão de que milhões
participem na forma do “intelecto coletivo” que ele privatizou e controla.
Deve-se transformar criticamente o aparato conceitual de Marx: por causa de sua negligência em relação à dimensão social do “intelecto coletivo”, Marx não vislumbrou a
possibilidade de privatização do próprio “intelecto coletivo”. É isto que está
no coração da luta contemporânea pela propriedade intelectual: a exploração tem
cada vez mais a forma de renda, ou, como diz Carlo Vercellone, o capitalismo
pós-industrial é caracterizado pelo “tornar-se renda do lucro” [VejaCapitalismo
cognitivo, editado por Carlo Vercellone, Roma, manifestolibri, 2006]. Em outras
palavras, quando, por conta do papel crucial do “intelecto coletivo”
(conhecimento e cooperação social) na criação de riqueza, as formas de riqueza
se tornam cada vez mais desproporcionais em relação ao tempo de trabalho
diretamente empregado na produção, o resultado não é, como Marx parecia
esperar, a autodissolução do capitalismo, mas a transformação gradual do lucro
gerado pela exploração da força de trabalho em renda apropriada pela
privatização do “intelecto coletivo”.
O mesmo acontece com os recursos naturais: sua exploração é uma das maiores fontes de renda hoje, acompanhada da luta permanente pra saber quem ficará com esta renda – os
povos do Terceiro Mundo ou as corporações ocidentais (a suprema ironia é que,
para explicar a diferença entre força de trabalho – que, em seu uso, produz
mais-valia sobre seu próprio valor – e outras mercadorias – que somente
consomem seu próprio valor em seu uso e, portanto, não envolvem exploração -,
Marx menciona como exemplo de uma mercadoria ordinária o petróleo, a própria
mercadoria que hoje é a fonte de extraordinários “lucros”…). Aqui também não
faz sentido vincular as altas e baixas do preço do petróleo com altos e baixos
custos de produção ou preços do trabalho explorado – custos de produção são
negligenciáveis, o preço que pagamos pelo petróleo é a renda que pagamos para
os proprietários deste recurso por conta de sua escassez e oferta limitada.
A consequência deste crescimento na produtividade alavancado pelo impacto exponencialmente crescente do conhecimento coletivo é a transformação do papel do desemprego: embora o “desemprego seja estruturalmente inseparável da dinâmica de acumulação e expansão que constitui a própria natureza do capitalismo enquanto tal”
[Fredric Jameson, em Representing Capital, Londres, Verso Books, 2011, p. 149],
o desemprego adquiriu atualmente um papel qualitativamente diferente. Naquilo
que, possivelmente, é o ponto extremo da “unidade dos opostos” na esfera da
economia, é o próprio sucesso do capitalismo (crescimento produtivo etc.) que
produz desemprego (produz mais e mais trabalhadores inúteis) – o que deveria
ser uma benção (menos trabalho duro necessário) se torna uma sina. O mercado
global é, assim, em relação a sua dinâmica imanente, “um espaço no qual todos
já foram, um dia, trabalhadores produtivos, e no qual o trabalho, em todos os
lugares, foi aos poucos retirando-se do sistema” [Fredric Jameson, em Valences
of the Dialetic, Londres, Verso Books, 2009, p. 580-1]. Isso é, no atual processo
de globalização capitalista, a categoria dos desempregados adquire uma nova
qualidade além da clássica noção de “exército industrial de reserva”: devemos
considerar em relação a categoria do desemprego “aquelas enormes populações,
que ao redor do mundo foram ‘expulsas da história’, que foram deliberadamente
excluídas dos projetos modernizadores do capitalismo de primeiro mundo e
apagadas como casos terminais sem esperança” [Jameson, em Representing Capital,
p. 149]: os assim chamados estados falidos (Congo, Somália), vítimas da fome ou
de desastres ecológicos, presos a “rancores étnicos” pseudo-arcaicos, objetos
da filantropia e das ONGs, ou (frequentemente os mesmos personagens) da “guerra
contra o terror”. A categoria dos desempregados deve assim ser expandida para
agregar uma população de largo alcance, dos temporariamente desempregados,
passando pelos não mais empregáveis, até pessoas vivendo nas favelas e outras
formas de guetos (todos aqueles desconsiderados pelo próprio Marx como
“lúmpem-proletariado”) e, finalmente, áreas inteiras, populações ou estados
excluídos do processo capitalista global, como os espaços em branco nos mapas
antigos.
Mas esta nova forma de capitalismo não traz também uma nova perspectiva de emancipação? Nisto reside a tese de Hardt e Negri em Multidão: guerra e democracia na Era do
Império [Rio de Janeiro: Record, 2005] onde eles pretendem radicalizar Marx,
para quem o capitalismo corporativo altamente organizado já era uma forma de
“socialismo dentro do capitalismo” (uma espécie de socialização do capitalismo,
com os proprietários tornando-se cada vez mais supérfluos), de maneira que
seria necessário apenas cortar a cabeça do proprietário nominal e nós teríamos
socialismo. Para Hardt e Negri, entretanto, a limitação de Marx foi estar
historicamente limitado ao trabalho industrial mecanicamente industrializado e
hierarquicamente organizado, razão pela qual a sua visão de “intelecto
coletivo” seria como uma agência central de planejamento; somente hoje, com a
elevação do trabalho imaterial ao padrão hegemônico, a transformação
revolucionária se torna “objetivamente possível”. Esse trabalho imaterial se
desdobra entre dois pólos: trabalho (simbólico) intelectual (produção de
ideias, códigos, textos, programas, figuras etc. por escritores,
programadores…) e trabalho afetivo (aqueles que lidam com afecções corpóreas,
de médicos a babás e aeromoças). O trabalho imaterial é hoje hegemônico no
sentido preciso em que Marx proclamou que, no capitalismo do século XIX, a
produção industrial em larga escala era hegemônica, como a cor específica dando
o tom da totalidade – não quantitativamente, mas cumprido um papel chave,
emblematicamente estrutural. Assim, o que surge é um inédito vasto domínio dos
“comuns”: conhecimento compartilhado, formas de cooperação e comunicação etc.
que não podem mais ser contidos na forma da propriedade privada – por quê? Na
produção imaterial, os produtos já não são objetos materiais, mas novas
relações sociais (interpessoais) – em suma, a produção imaterial já é diretamente
biopolítica, produção de vida social.
A ironia é que Hardt e Negri se referem aqui ao próprio processo que os ideólogos do
capitalismo “pós-moderno” celebram como a passagem da produção material para a
simbólica, da lógica centralista-hierárquica para a lógica da autopóiese e da
auto-organização, cooperação multi-centralizada etc. Negri é aqui efetivamente
fiel a Marx: o que ele tenta provar é que Marx estava certo, que a ascensão do
intelecto coletivo é, em longo prazo, incompatível com o capitalismo. Os
ideólogos do capitalismo pós-moderno estão afirmando exatamente o oposto: é a
teoria marxista (e sua prática) que permanecem dentro dos limites de uma lógica
hierárquica e sob controle centralizado do Estado, e assim não conseguem lidar
com os efeitos sociais da nova revolução informacional. Existem boas razões
empíricas para esta afirmação: de novo, a suprema ironia da história é que a
desintegração do Comunismo é o exemplo mais convincente da validade da
tradicional dialética marxista entre forças produtivas e relações de produção
com a qual o marxismo contou na sua tentativa de superar o capitalismo. O que
arruinou efetivamente os regimes Comunistas foi sua inabilidade em acomodar-se
à nova lógica social sustentada pela “revolução informacional”: eles tentaram
dirigir esta revolução com um novo projeto de planejamento estatal centralizado
de larga escala. O paradoxo, assim, é que aquilo que Negri celebra como chance
única de superação do capitalismo, é exatamente o que os ideólogos da
“revolução informacional” celebram como ascensão de um novo capitalismo “sem
fricção”.
A análise de Hardt e Negri possui três pontos fracos que, em sua combinação, explicam como o
capitalismo pode sobreviver ao que deveria ser (em termos marxistas clássicos)
uma nova organização da produção que o tornaria obsoleto. Ela subestima a
extensão do sucesso do capitalismo contemporâneo (pelo menos em curto prazo) de
privatizar o “conhecimento comum”, assim como a extensão com que, mais do que a
burguesia, são os próprios trabalhadores que se tornam “supérfluos” (número
cada vez maior deles torna-se não somente desempregado, mas estruturalmente
inempregável). Além disso, mesmo que seja verdade, em princípio, que a
burguesia está progressivamente se tornando desfuncional, deve-se qualificar
esta afirmação – desfuncional para quem? Para o próprio capitalismo. Isto quer
dizer que, se o velho capitalismo envolvia idealmente um empreendedor que
investia dinheiro (seu ou emprestado) em produção organizada e dirigida por ele
próprio, recolhendo o lucro, hoje está surgindo um novo tipo ideal: não mais o
empreendedor que possui sua própria empresa, mas o gerente especialista (ou um
conselho administrativo presidido por um CEO) de uma empresa de propriedade dos
bancos (também dirigidos por gerentes que não possuem os bancos) ou
investidores dispersos. Neste novo tipo ideal de capitalismo sem burguesia, a
velha burguesia desfuncional é refuncionalizada como gerentes assalariados – a
nova burguesia recebe cotas, e mesmo se ela possui uma parte na empresa, eles
recebem as ações como parte da remuneração pelo trabalho (“bônus por sua
gerência bem sucedida”).
Esta nova burguesia ainda se apropria da mais-valia, mas da forma mistificada daquilo que Milner chama de “mais-salário”: em geral, a eles é pago mais do que o salário mínimo
do proletário (este ponto de referência imaginário – frequentemente mítico –
cujo único verdadeiro exemplo na economia global de hoje é o salário de um
trabalhador numa sweat-shop na China ou na Indonésia), e é esta diferença em
relação aos proletários comuns, esta distinção, que determina seu status. A
burguesia no sentido clássico, assim, tende a desaparecer. Os capitalistas
reaparecem como um subconjunto dos trabalhadores assalariados – gerentes
qualificados para ganhar mais por sua competência (razão pela qual a
“avaliação” pseudo-científica que legitima os especialistas a ganharem mais é
crucial hoje em dia). A categoria dos trabalhadores que recebem mais-salário
não está, obviamente, limitada aos gerentes: ela se estende a todos os tipos de
especialistas, administradores, funcionários públicos, médicos, advogados,
jornalistas, intelectuais, artistas… O excesso que eles recebem tem duas
formas: mais dinheiro (para gerentes etc.), mas também menos trabalho, isto é,
mais tempo livre (para alguns intelectuais, mas também para setores da
administração estatal).
O procedimento de avaliação que qualifica alguns trabalhadores para receberem mais-salário é,
claramente, um mecanismo arbitrário de poder e ideologia sem nenhuma ligação
séria com a competência real – ou, como diz Milner, a necessidade de
mais-salário não é econômica, mas política: para manter uma “classe média” com
o propósito de estabilidade social. A arbitrariedade da hierarquia social não é
um erro, mas todo o seu propósito, de forma que a arbitrariedade da avaliação
cumpre um papel homólogo à arbitrariedade do sucesso de mercado. Isto é, a
violência ameaça explodir não quando existe muita contingência no espaço
social, mas quando se tenta eliminar esta contingência. É neste nível que se
deve buscar pelo que se pode chamar de, em termos um tanto vagos, a função
social da hierarquia. Jean-Pierre Dupuy [em La marque du sacre, Paris, Carnets
Nord, 2008] concebe a hierarquia como um dos quatro procedimentos (“dispositivos
simbólicos”) cuja função é fazer com que a relação de superioridade não seja
humilhante para os subordinados: a hierarquia (a ordem externamente imposta de
papéis sociais em clara contraposição ao valor imanente dos indivíduos – eu,
portanto, experimento meu menor status social como totalmente independente do
meu valor intrínseco); a desmistificação (o procedimento crítico-ideológico que
demonstra que as relações de superioridade/inferioridade não estão
fundamentadas na meritocracia, mas são resultado de lutas objetivamente
ideológicas e sociais: meu status social depende de processos sociais
objetivos, não de méritos – como diz Dupuy sarcasticamente, a desmistificação
social “cumpre o mesmo papel, em nossas sociedades igualitárias, competitivas e
meritocráticas do que a hierarquia nas sociedades tradicionais” [p. 208] – isto
nos permite evitar a conclusão dolorosa de que “a superioridade do outro é o
resultado de seus méritos e conquistas”; acontingência (o mesmo mecanismo,
porém sem a sua forma crítico-social: nossa posição em escala social depende de
uma loteria natural e social – sortudos são aqueles que nascem com melhores
disposições e em famílias ricas); acomplexidade (superioridade ou inferioridade
dependem de um processo social complexo independente das intenções ou méritos
dos indivíduos – digamos, a mão invisível do mercado pode causar o meu fracasso
ou o sucesso do meu vizinho, mesmo que eu tenha trabalhado muito mais e seja
muito mais inteligente). Ao contrário do que parece, todos estes mecanismos não
contestam ou sequer ameaçam a hierarquia, mas a tornam palatável, uma vez que
“o que desencadeia o turbilhão da inveja é a ideia de que o outro merece a sua
sorte e não a ideia oposta, a única que pode ser abertamente expressa” [p.211].
Dupuy extrai desta premissa a conclusão (óbvia, para ele) de que é um grande
erro pensar que uma sociedade que seja justa e que se perceba como justa será
assim livre de todo o ressentimento – ao contrário, é precisamente em tal
sociedade que aqueles que ocupam posições inferiores encontraram uma válvula de
escape para seu orgulho ferido em violentas explosões de ressentimento.
Aí reside um dos maiores impasses da China hoje: o objetivo ideal das reformas de Deng Xiaoping era introduzir um capitalismo sem burguesia (como classe dominante); agora,
entretanto, os líderes chineses estão descobrindo dolorosamente que o
capitalismo sem hierarquia estável (conduzida pela burguesia como nova classe)
gera permanente instabilidade – portanto, que caminho tomará a China? Mais genericamente,
esta é possivelmente a razão pela qual (ex-)comunistas reaparecem como os mais
eficientes gestores do capitalismo: sua histórica inimizade com a burguesia
enquanto classe se encaixa perfeitamente na tendência do capitalismo
contemporâneo em direção a um capitalismo gerencial sem burguesia – em ambos os
casos, como Stalin disse a muito tempo, “os quadros decidem tudo” (está
surgindo também uma diferença interessante entre a China de hoje e a Rússia: na
Rússia os quadros universitários eram ridiculamente mal pagos, eles de fato se
confundiam com os proletários, enquanto na China eles são bem remunerados com
um “mais-salário” como meio de garantir sua docilidade).
Além disso, esta noção de “mais-salário” também nos permite lançar novas luzes sobre os atuais protestos “anti-capitalistas”. Em tempos de crise, o candidato óbvio para
“apertar os cintos” são os níveis mais baixos da burguesia assalariada: uma vez
que o seu mais-salário não cumpre nenhum papel econômico imanente, a única
coisa que permite diferenciá-los do proletariado são seus protestos políticos.
Embora estes protestos sejam nominalmente dirigidos pela lógica brutal do
mercado, eles efetivamente protestam contra a gradual corrosão de sua posição
econômica (politicamente) privilegiada. Lembremos da fantasia ideológica
favorita de Ayn Rand (de seu Atlas Shrugged), a de “criativos” capitalistas em
greve – esta fantasia não encontra sua realização perversa nas greves de hoje,
que em sua maioria são greves da privilegiada “burguesia assalariada” motivada
pelo medo de perder seu privilégio (o excedente sobre o salário mínimo)? Não
são protestos proletários, mas protestos contra a ameaça de ser reduzido à
condição proletária. Isto quer dizer: quem ousa se manifestar hoje, quando ter
um emprego permanente já se tornou um privilégio? Não os trabalhadores mal
pagos (no que sobrou) da indústria têxtil etc. mas o estrato de trabalhadores
privilegiados com empregos garantidos (muitos da administração estatal, como a
polícia e os fiscais da lei, professores, trabalhadores do transporte público
etc.). Isto também vale para a nova onda de protestos estudantis: sua maior
motivação é o medo de que a educação superior não mais lhes garanta um
mais-salário na vida futura.
Está claro, obviamente, que o enorme renascimento dos protestos no último ano, da Primavera
Árabe ao Leste Europeu, do Occupy Wall Street à China, da Espanha à Grécia, não
devem definitivamente ser desconsiderados como uma revolta da burguesia
assalariada – eles guardam potenciais muito mais radicais, de forma que devemos
nos engajar numa análise concreta caso a caso. Os protestos estudantis contra a
reforma universitária em curso no Reino Unido são claramente opostos às
barricadas do Reino Unido em agosto de 2011, este carnaval consumista de destruição,
a verdadeira explosão dos excluídos. Em relação aos levantes do Egito, pode-se
argumentar que, no começo, houve um momento de revolta da burguesia assalariada
(jovens bem educados protestando contra a falta de perspectiva), mas isto foi
parte de um amplo protesto contra um regime opressivo. Entretanto, até que
ponto o protesto conseguiu mobilizar trabalhadores e camponeses pobres? Não
seria a vitória eleitoral dos islâmicos também uma indicação da base social
estreita do protesto secular original? A Grécia é um caso especial: nas últimas
décadas surgiu uma nova “burguesia assalariada” (especialmente na administração
estatal superdimensionada) graças à ajuda financeira e empréstimos da União
Europeia, e muitos dos protestos atuais, mais uma vez, reagem à ameaça de perda
destes privilégios.
Além disso, esta proletarização da baixa “burguesia assalariada” vem acompanhada do excesso
oposto: as remunerações irracionalmente altas dos grandes executivos e
banqueiros (remunerações economicamente irracionais, uma vez que, como
demonstraram as investigações nos Estados Unidos, elas tendem a ser
inversamente proporcionais ao sucesso da empresa). É verdade, parte do preço
pago por essa super remuneração é o fato dos executivos ficarem totalmente
disponíveis 24 horas por dia, vivendo assim num estado de emergência
permanente. Mais do que submeter estas tendências a uma crítica moralista,
deveríamos interpretá-las como a indicação de como o próprio sistema
capitalista não é mais capaz de encontrar um nível interno de estabilidade
autorregulada e de como esta circulação ameaça sair do controle.