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Estaremos entrando numa nova era? Espero, para o nosso bem, que sim.
Segundo o Governador eleito, a palavra de ordem será concertação; tema nodal para o seu governo e, porque não dizer, para todos nós sul-rio-grandenses.

Eleito ainda em primeiro turno, algo absolutamente inédito face ao temperamento gaulês do povo gaúcho, a harmonização da terra onde se afirma que o povo acima do Mampituba são os brasileiros que falam português igual a nós, é, sem dúvidas, “o desafio”.

Acreditem, por aqui ainda discutirão sobre qual consoante conformará o sentido da expressão política usada e abusada por Tarso Genro. A situação cavalgará o velho “C”, tratando o tema como conCerto, harmonização, adequação de diferenças, composição para um projeto comum. Já as hostes oposicionistas soarão com estampidos e discursos onde o “S” formará o conSerto e denunciará a política do Governo, pois, afirmarão que as coisas precisam ser arrumadas, os defeitos anulados e o deteriorado, restaurado.

Afinal, por aqui se discute tudo e, todos, sobre tudo, têm posição firme e inamovível, além de ser chique e “politizado” morrer abraçado com as próprias, mesmo que carcomidas, ideias. Os lenços ainda dividem os gaúchos; sim, na terra de aquém Mampituba, antes de qualquer coisa, quer-se saber se somos maragatos ou chimangos, farrapos, todos somos; sobre social democracia europeia, coisa de fresco, diria o gaúcho ensacado nas bombachas.

Quero falar de con[C/S]ertação e José Martí avassala minha consciência cidadã.
Dia desses, lia os “versos sencillos” e, na apresentação da obra, encontro a reflexão sobre o que determinaria a grandeza ou a pequenez de um povo. A frase veio simples e direta: o povo que esquece suas guerras civis é grande, e quanto mais as esquece, maior o será. Esta fala calou-me profundamente.

Nós gaúchos temos data marcada para comemorar a matança que cometemos contra nós mesmos. Claro, sejamos farroupilhas, chimangos ou maragatos, o que tem definido o povo de aquém Mampituba é o lado onde estávamos enquanto fazíamos a matança dos nossos irmãos. E na matança simbólica – contemporânea – de que lado estaremos?

De José Marti vou-me aos estádios de futebol. Dia desses, dei-me conta de que inverteram a ordem de execução dos Hinos Nacionais; sim, nacionais, pois o hino do Rio Grande – e somos o único lugar no Brasil onde o nosso hino é cantado juntamente com o hino brasileiro –, existe ordem, primeiro cá, após, uma lambuja aos de lá. O que acontece nos nossos estádios? Começa o hino nacional e as torcidas continuam com o hino rio-grandense, sobrepondo-o ao nacional. Qual foi a solução? Inverteram a ordem cerimonial: agora, primeiro canta-se o Nacional, e somente após o Gaúcho. Assim, não há a sobreposição dos gaúchos sobre os brasileiros e, os gaúchos obrigam-se a cantar o Hino do nosso País. Reflitam! A ordem cerimonial, em qualquer país do mundo, manda que o Hino Nacional seja elevado nas cerimônias públicas. No Rio Grande do sul – com o intuito de livrar-nos do ridículo veiculado em rede nacional de televisão – modificou-se a prática universal.

Por que lhes trago estas questões? Porque desejo que a conCertação proposta pelo Governador eleito não tenha que ser submetida a conSertação das nossas desarmonias políticas e sociais. É preciso integrar o Rio Grande ao Brasil e isso exige da sociedade a mudança nas atitudes cívicas.
São tantos os nossos prazeres em exercer a divergência política, que não faria mal buscarmos o gozo no diálogo.

Nossa cultura está tão afirmada na eliminação do adversário que, a cada comemoração cívico-farroupilha, terminamos por paramentar nossas mentes com a saga que nos faz farrapos. Antanho, eliminávamos pela degola, hoje, a lâmina corta pelo moralismo particularista e sectário.

Grandes desafios estão postos aos gaúchos e as gaúchas. Não desejo desconstituir nenhuma convicção civilizatória, mas vou convencido de que, com C ou com S, precisamos das duas formas verbais para deixarmos o atoleiro onde nos metemos.