Em “The Ides of March” não há advogados

15/01/2012 | Publicado por Ricardo Giuliani na categoria Última Instância

“Tudo pelo Poder” é o nome do filme estrelado e dirigido por George Clooney e com um senhor elenco. A tradução do título para a língua portuguesa, nestes termos, não é gratuita, casual ou despreocupada com o argumento proposto. A disputa eleitoral revela os símbolos escondidos da política. Notem, não estou falando “daquela” política especificamente, mas da política mesma. Se por lá chamaram, em livre tradução, de “nos idos de março”, por aqui, não faria mal cunharmos um “em tempos de outubro”, e o argumento estaria preservado; em política, faz-se de tudo para alcançar o poder, seja em março, seja em outubro, nos Estados Unidos ou no Brasil.

A aliança do progressista com o conservador – do antes escrupuloso com o sempre inescrupuloso – é avassaladora e desnuda a “ética da política” nos processos de viabilização [vitória pela vitória] de um projeto de poder.

Observem que o candidato interpretado por Clooney é um tipo honesto e idealista, em certa medida. Tanto o é que o seu assessor de imprensa, não o calejado e pragmático profissional coordenador-geral da campanha, professa adesão política e pessoal ao “projeto de nação” conduzido ao debate nas prévias partidárias pelo seu candidato.

A derrota iminente, a negação às alianças sem critério, que impede a agregação do número de delegados necessários ao êxito eleitoral, impõe escolhas que, ao fim e ao cabo, levam as convicções, [antes] honestas, à lata do lixo e ao topo do pódio. De tudo, constrói-se a vitória eleitoral e, com ela, a derrota do idealismo do antes ingênuo assessor de imprensa, cooptado pelo resultado prático do vitória eleitoral possível. Por outras palavras, o idealista é “ganho” pelos jogos do poder e, com o poder, romantismo, “ética política”, princípios e convicções, às favas.

Dores pessoais movem a política; ambições pessoais, conduzem a política; o meio, as mass media, faz política e (re)molda os seus agentes; o aparelho de Estado canta como a sereia!

Se nos dedicarmos ao fio moral da película, o encontraremos exatamente na hipocrisia exercida no mundo da política que respira a preocupação permanente e incansável de gerar e gerir imagens. No filme não há meias palavras, “meias-cenas”, “meio-aborto” “meia-traição”, meio-arrivismo ou desprezo aos desejos de vingança. O envolvimento “pessoal” do político com o sexo e com medo íntimo de perder a imagem proba, o faz trafegar pelo poder a partir das necessidades que tem (impostas pela sociedade não menos hipócrita) de manter-se puro, incólume e distante das práticas reais e cotidianas de todos os homens e mulheres eleitores.

A pureza e a imaculação do homem político é a matéria-prima para a espetacularização da política. Notem, em “Tudo pelo Poder” não há advogados, os homens e as mulheres de mídia estão por todos os lados. Há o pragmático, o idealista, os íntimos do poder, o cínico, o honesto, o ingênuo; enfim, o filme expressa a realidade de uma política produzida nas redações e para as redações. A política é o mundo dos bastidores! O Mal é construído como a elevação de um juízo estético do Bem.

Esta não é a política dos Estado Unidos nem a política do Brasil. Alianças do tipo Lula-Alencar, Dilma-Temer, PT e PMDB, simplesmente escarram esta política, a política da idade mídia, do espetáculo, da falência da esfera pública que construiu a institucionalidade do Estado Moderno e da morte dos partidos políticos como entes legítimos de representação de parcelas da opinião da sociedade sobre si mesma.

Vale a pena assistir o filme. Quem o recomenda? Quem já viu que tudo o que lá foi dito e tudo que lá aconteceu, acontece, e acontece de verdade. Nos idos de outubro, nas urnas, nos encontraremos outra vez.

A propósito, como “A montanha dos sete abutres”, este é um filme sobre Jornalismo.

 

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