“Joaquim Barbosa, meu herói!”

Chove em Porto Alegre. Tempestade de raios e água; fúria
natural  vertendo por todos os cantos do
céu. Segundo a grande mídia – e a pequena também –, na segunda-feira, o Supremo
Tribunal Federal entrará na “fase de Julgamento dos políticos”. Putz!, trovão
enorme, tremeu tudo por aqui. A água lava mas não limpa  as nossas almas.

Ouvi de um jornalista que o Ministro Joaquim Barbosa era o
seu herói. Sim! E justificou: “ele já condenou oito dos nove”. Mas como bate
água nesta terra?! Raios riscam o céu buscando almas puras e, sem encontra-las
por lugar algum, perdem-se no infinito do horizonte tomado pelo breu das nossas
noites.

Mas então, eis que o Ministro se transforma em herói por
condenar, não por ser justo! Detalhe: o jornalista falou no programa de maior
audiência das bandas de cá. O Ministro virou herói porque condena, não por ser
justo.

Esta a realidade que o julgamento do mensalão está produzindo
na sociedade. Ninguém quer saber se há justiça no caso. Importa, inclusive para
os “formadores de opinião”, as condenações. É o herói pela degola; sem
trocadilhos, eis a pena.

Não examino o caso concreto porque não conheço os autos.
Então, por padrão civilizatório e institucional, tenho que o julgamento uma vez
feito, está feito. A “justiça” nasce da institucionalidade legítima e não de “desejos”
destes ou daqueles em sorver sangue ou condenações.

Dia desses, num processo meu, um desembargador resolveu o
caso com uma matéria de jornal que ele, da cabeça dele, resolveu trazer pros autos.
Perguntem se tive acesso ao tal documento? Não! A lei diz que quem traz
documentos aos autos são os advogados e não os juízes. Fazer o quê? Gritar?
Não! Recorrer e espalhar pro  mundo que o
tal desembargador errou por, ao invés de julgar como juiz, “julgou” como alguém
que usa o judiciário para expressar agruras pessoais. Como se resolve isso?
Recorrendo para dentro do próprio judiciário e tratando de fazer vestibular
para arquitetura pois, como não sei fazer mais nada além de advogar, preciso
outra profissão, pois me parece que a postura do tal desembargador é contagiosa
e epidêmica.

Por que lhes digo isso? Porque a fala do tal jornalista é a
mesma fala do desembargador e é a mesma fala da sociedade e é a fala de um
certo lugar comum epidêmico; por outra, é o lugar da injustiça pela solução do
pão e circo, do panis et circenses e
do uso pessoal das instituições de Estado.

Tão tá. Chove por estas bandas. O céu cospe raios e procura
almas puras e amanhã começa a condenação de Zé Dirceu e sua turma. Culpados?
Sei lá! Importa é que a sociedade espera dos seus “heróis” mais um pescoço e
mais uma ilusão de que, de pescoço em pescoço, tudo poderá melhorar.