O homem que amava os cachorros – Resenha Revista Voto

A política do nosso tempo dilacera. A mediocridade, o descompromisso e a publicitarização da política a sabonetizaram. Vende-se tudo, de fatos a verdades. Aliás, o mundo transformou-se num ambiente onde a “verdade” virou produto e monopólio do Poder.

Venho de um tempo em que o fazer público pedia cultura e, pasmem, lado, parte, partido; hoje os políticos, sem lado e sem cara – desculpem-me pela generalização injusta –, leem bulas de remédio, placas de trânsito e emendas parlamentares; tudo para contarem os tostões em troca de “verdades” a serem construídas. A mediocridade é pico, e os subterrâneos, cotidiano, tudo com a naturalidade de uma alface posta para o devorar de lesmas mancas; e vamos nós.

Ler Padura nos dá cultura e crítica política; sem fanatismos, culpas distribuídas, deuses ou demônios, o romancista nos conduz, em exuberante narrativa, ao mundo e ao Estado que matou Leon Trótski e deu à humanidade a mais escarrada noção de como se movimentam a política e os políticos reais; esquerda e direita vão ora juntos  e mancomunados, ora, mutuamente suicidados. Naqueles tempos, a morte vinha pela eliminação física, hoje, pela moral. Lá, nos idos dos anos 30 e 40, moralizavam a política e legitimavam fuzilamentos, envenenamentos e picaretas de alpinista; hoje, fuzila-se moralmente, com “verdades”, como lá, inventadas pelos donos do Poder; ah! e legitimam-se os picaretas.

Vidas se vão terçando e motivos de Estado dando tintas e ditando “ordens unidas”. No romance de Padura, (re)encontramo-nos num fazer político velho e carcomido; mudaram as armas, os assassinados, somos os mesmos! Ganhei o livro de um trotskista amigo meu, com dedicatória e tudo. Adorei! Renovei a convicção de que todos nós, a par do que pensamos ou professamos – ou de como seremos matados –, ainda valemos a pena!

Em O homem que amava os cachorros há cultura política sem os maniqueísmos tão comuns em tempos de mensalões e de corruptivas emendas parlamentares. Na verdade, bem lido, muitos stalins em compotas terão, nos dias de hoje, saias levantadas e partes pudendas postas à mostra.

Crédito Revista Voto:

http://www.revistavotodigital.com.br/web/pub/voto/index.jsp?ipg=118883