sobre a nossa crise – publicado em JUL de 2012

O tema que chama a atenção no “desenvolvimento” econômico brasileiro é o seu
crescente processo de desindustrialização.

Economistas de esquerda, pelo seu viés, alertam-nos para este fenômeno lá se
vão uns três anos. Os de direita, pelo revés, acometem-se de pavores a partir
de agora. As crenças no mundo das finanças começam ceder passo à realidade
vivida no mundo fabril, ou seja, no mundo do emprego, da geração de renda e da
agregação de valor às nossas matérias primas.

A crise, sem qualquer dúvida, é global e, sendo assim, como a China (a falsa
economia de mercado), a segunda maior economia do planeta, está afetada pela
quase falência da Europa, o Brasil não foge a escrita.

Todavia, tirando as más influências europeias, é preciso atentarmos para o que
ocorre na vizinha Argentina. Por lá, uma série de províncias padecem de
crises fiscais enormes, ao ponto dos governos locais não conseguirem mais pagar
os salários do mês para os seus funcionários. A dependência das províncias
Argentinas do Governo central é tanta que a crise econômica transforma-se, a
passos largos, em crise política (ver o caso de Buenos Aires). As recentes
medidas de “pesificação “e de controle sobre o câmbio e importações expressam a
gravidade da crise, especialmente, nas províncias não industriais (e
desindustrializadas).

No Brasil, em alguns Estados da federação, temos um germe de crise Argentina
robustecendo-se e preparando as condições para eclodir com a violência real de
uma crise fiscal sem precedentes. A não solução por alguns Estados da questão
previdenciária e a crescente assunção de novas dívidas, por conta da
generosidade da mamãe União, é uma combinação explosiva, para não dizer
irresponsável.

O exemplo clássico que se pode dar da situação a que me refiro é a do Rio
Grande do Sul. Previdência sem solução, crescente comprometimento da folha de
pagamento dos servidores públicos com projeção de despesas agregadas (reajustes
pré-agendados) para os próximos seis anos e mais de 4 bilhões de Reais em novos
endividamentos nos primeiros ano e meio de governo, combinados com quebras de
safra sazonais (na ordem de 40% na média) e três anos seguidos de desempenho
negativo da indústria, conformam um futuro preocupante, para não dizer,
repito,  irresponsável. Não falemos da absoluta incapacidade do Governo
Estadual em  gestar e executar políticas que dotem o mercado de
infraestrutura mínima para assegurar competitividade e estruturação econômica
sólida e perene. Ademais, no Rio Grande do Sul há, por parte dos governantes,
um verdadeiro pavor (ideológico) na recepção de capitais privados destinados a
alavancar nossa infraestrutura. Nem se fale da absoluta indigência profissional
e intelectual daqueles que tomaram conta das atividades de gestão das políticas
públicas por fora da administração pública profissionalizada (com funcionários
de carreira muito competentes, diga-se de passagem).

Se olharmos para a realidade Argentina, com perfil econômico (e político, ouso
afirmar) muito parecido com o do Rio Grande do Sul – e com outros Estados de
vocação no agronegócio  e máquina estatal hipertrofiada – o certo é que
necessitamos de cautela, e de alguma sorte.

O câmbio vai favorável, os juros, em patamares cada vez mais civilizados e o
governo federal, parece, está atento às chamadas medidas anticíclicas. Todavia,
medidas de expansão do consumo tem limites e estes já estão aparecendo. O
equilíbrio fiscal – longe de chavões – é uma face que merece atenção, sem,
contudo, retomarmos o receituário neoliberal que abandona as pessoas e privilegia
os mercados especulativos.

Ter um olho atento no que está acontecendo na Argentina – a Europa está sendo
cuidada com lupa – é uma necessidade extrema para os que não querem uma
derrocada das nossas unidades federadas.