Sou Rei? Classe média, é o que sois!

16/01/2012 | Publicado por Ricardo Giuliani na categoria Última Instância

Arrastando o manto escarlate e fazendo brilhar jóias de “produção”, andava o reizinho anão, prá lá e pra cá, empunhando um cetro ornado de ouro-de-tolo e falsos brilhantes, a questionar seus súditos atores: “Sois rei? Sois rei? Sois rei?” E a corte embriagada pelas vantagens de simplesmente estar na Corte, em coro e de cabeças baixas, recolhiam-se: “não Majestade, Rei, sois vós!”

Jô Soares construiu o Rei-Anão, gente boa, ciente da sua condição de Rei.

Era tempo de ditadura. Período quando a medição da inflação rendia anedotas com a função política de minorar os sentimentos de desgraça constante no dia-a-dia da “tão sofrida” classe média brasileira. Naqueles idos – não faz tanto tempo assim – qualquer ombro gemado, qualquer roupa feia de coloração verde-abacate, fazia resplandecer na classe média brasileira a sensação de genuflexão e injúria: “sois rei, sois rei, sois rei”, mesmo assim rendia homenagens aos coturnos, blasfemava pelas avenidas e se reafirmava classe média.

Naqueles idos, de economistas e tecnocratas e baionetas, poder-se-ia, para medir a inflação que tanto atarantava a classe média brasileira, misturar preços de arroz e polainas, bengalas e feijão, monóculos e mandioca, censuras e o “rei, sois vós”. Dizia o tecnocrata a variável econômica, e os prepostos dos generais anunciavam índices de inflação – sempre dois dígitos a atordoar as classes médias – e, pelos números, sentiam o empobrecimento nas gôndolas dos mercados, bolichos e armazéns.

“Rei”, isso é o que sois! Aquela classe média é a mesma de hoje; se naquele período era comprada a custa de índices inflacionários esdrúxulos, maquiados por censura e esperteza, hoje continua comprada por sonhos de consumo e pela possibilidade de, no amanhã, vestirem-se com mantos escarlates, ostentarem cetros com jóias falsas e declararem-se “ricos” em dinheiro e capacidade de comprar e comprar e comprar.

Mais de 32 milhões de brasileiros, segundo a FGV, passaram a figurar num círculo de consumo antes restrito. Então, a classe média de hoje, não é a mesma de ontem. Ou seria? Atentem-se ao trottoir nas avenidas de Nova Iorque e para o rebolado brilhante na Champs Élisèes, mirem o ouro-de-tolo, observem os novos donos do poder; nas hierarquias sociais, mudou o quê?

Lembro-me da classificação que os tecnocratas de ontem faziam acerca deste estamento social: Classe média A, B e C. Sim! Estes os três grupos de antanho. Hoje, as letrinhas estenderam-se ao nível “E”. Bem vista a classificação oferecida pelo IBGE, a classe média será: Alta, A1, A2, B1 e B2; Média, C1 e C2; e, Baixa, D e E. As faixas de renda variam de R$ 500,00, na E até os 14.550,00 na A1. Fato: os tecnocratas continuam os mesmos!

Nos discursos governamentais, mesmos no dos marxistas de antigamente, não há cidadãos, não há contribuintes, existem consumidores. Observem que a condição preconizada para o enfrentamento da crise do capitalismo financeiro internacional reside, na receita brasileira, em aumentar o consumo das classes médias como modo de assegurar as rendas dos proprietários dos meios de produção.

Pois é, classe média, afirmam os conceitos do liberalismo e do marxismo, é o conjunto de pessoas, o estrato social, alocado entre proprietários dos meios de produção e proprietários da mão de obra. É a classe do meio, ou Middle Class: profissionais liberais, comerciantes, prestadores de serviços em geral. Middle Class é proprietária de nada! Ou seja, é a proprietária de nada que almeja, um dia, ser rica; proprietária, são outros quinhentos.

No Brasil, segundo o IBGE, quem recebe salários entre R$ 1.200,00 e R$ 6.000,00, é classe média/média. Sim, as necessidades ideológicas de nutrir a massa de 92 milhões de brasileiros que estão nesta condição impõe uma classificação que permita a este povo antever possibilidades reais de atingir a “riqueza” (no sentido de sentir-se rico) e, portanto, sentir-se acolhido e prestigiado pelo sistema, sem, contudo, almejar a propriedade dos meios de produção. Não é à toa que existem as classes A1, A2, B1 e B2 (média/alta), salários entre R$ 6.000,00 e 14.550,00 reais; as classes D e E (média/baixa), (sobre)vivem entre os R$ 500,00 e os 700,00 reais. Perguntem-se: se a classe é média, é a do meio, o que existe nos seus extremos? O que há numa e noutra ponta? Então, porque a classificação estatal oficial não expressa claramente as tais duas pontas? Que função política e ideológica cumpre a ausência expressa dos proprietários dos meios de produção e proprietários da mão de obra da classificação governamental?

A espetacularização dos direitos de consumo e das capacidades de exercício de poder político oferecido à nova-classe-média cumpre um papel de dominação e de homogeneização de massas absolutamente relevante aos atuais proprietários dos meios de produção. A permanente insuflação da expectativa de “ser rico”, (função da mídia na constituição da esfera pública) hierarquiza a sociedade e a domestica a partir da gestão de expectativas sociais massificadas.

O Brasil contemporâneo, o CiberBrasil, o Brasil do Presidencialismo de Coalizão Orçamentária, cumpre uma função na “idade mídia”, harmonizado com o capitalismo financeiro globalizado. Nossa emergência econômica, junto com os BRICS, impõe um tratamento ideológico forte e sofisticado para uma classe de pessoas que se pergunta todos os dias: Sou rei, sou rei, sou rei? A política alienada, barata e desqualificada, composta por uma representação de reis de igual espécie, responde-se em tom tonitruante: “sim majestade, somos Reis!!!

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