Um idiota, finalmente. (escrito em 22/10/2012 – para ver minha senoidal)

 

Parecia que este dia jamais aconteceria. A idiotia, em verdade, sempre foi o mundo onde desejei estar.

Durante anos a fio fui um covarde. Lutei pelas minhas convicções, disse tudo o que pensava, agi com o peito aberto e,
acredite, sempre me orientei pelo pressuposto da covardia honesta. Me despi do
modo que somente os covardes se despem. Nu, andava por aí sem quaisquer
precauções pessoais. Zanzava bêbado de um compromisso com um mundo e com uma
sociedade que, finalmente percebi, existiam somente nas minhas convicções
cidadãs.

Todos sempre souberam tudo o que eu penso. Covarde é o que eu era!

Pouco me importava o título ou a posição do meu contendor. Se juiz, promotor, mãe do badanha, fosse o que fosse ouvia cem por
cento do que penso sobre a vida e sobre eles. Governador? Caddie? Pouco me interessava a estirpe do interlocutor: sempre recebiam o meu bom dia, meu muito obrigado, meu até logo. Afinal de contas, os covardes são bem educados pelas
suas famílias e, por convicção, honramos os ensinamentos da Casa paterna. Nós os covardes trazemos a educação política de não pessoalizar a política ou os nossos interesses pessoais. Ao contrário da horda que toma conta do mundo, nós
os covardes não nos sentimos diminuídos pelo não exercício da dissimulação, da arrogância, da autossuficiência, da matreirice e da fala fácil que diz o que o outro quer ouvir.

Larguei esta vida de covardia! Resolvi ser um valente, um homem corajoso, finalmente.

Enfim, vou-me recolher a mim mesmo, à minha família e aos meus.

A vida sempre foi generosa para comigo. Sempre tive espaços na mídia, jornais, rádios, televisões e revistas. Lá se vão quase duas
décadas de universidade. Lá se vão mais de 30 anos de política que fiz, sempre, sem mandatos formais. Vai-se um tempo onde um papel foi cumprido a contento e espero tenha sido cumprido com a honesta covardia de nunca ter prejudicado
alguém. É como eu disse: este tempo se vai ou, por outra, se esvai na medida em que me desmancho diante do esgoto que toma conta dos meios públicos e da nossa sociedade. Sou um fraco, trinta e poucos anos de luta são demais pra mim.

Então sou tomado por uma coragem que não sei de onde vem e decido fugir para o casulo. Fujo de tudo e de todos. Quero a mim mesmo e
os meus. Não vou mais escrever sobre política, não vou mais debater sobre política e sociedade, não vou mais enfrentar os poderosos. Sou um corajoso, ao final.

Ou, como diria o grande Péricles: serei um idióte, um homem que abandona as coisas da sociedade para dedicar-se a si mesmo. Aos
covardes, como o Eu de antigamente, desejo-lhes boa sorte, boa luta e bons estômagos.

Obrigado por estes anos todos em que escrevi por aqui, de fato, foi um privilégio.